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O QUE RESTOU DE NOSSOS AMORES

Do grupo Beta

Estamos em 2017. Os acontecimentos de censura à arte, em destaque na mídia nos últimos meses, nos faz parecer que a peça O que restou dos nossos amores, do grupo Beta, é mais do que necessária para o momento. Não que a peça seja panfletária, mas ela toca em questões que nos são tão caras, como o desejo e a afirmação da liberdade. A história ficcional (ou livremente inspirada na vida e obra do escritor Caio Fernando Abreu) traz os personagens, Caio e Isabel, em dois momentos históricos diferentes: o contexto a ditadura militar pós-AI-5 e a ditadura afetiva surgida com o boom do HIV no Brasil, nos anos 80.

Esses momentos dividem a peça em dois atos distintos, inclusive com o intervalo de 10 minutos entre eles. A narrativa é orquestrada a um compilado de referências dos períodos retratados, em especial, as musicais. No entanto, essas referências musicais quase não entram em forma de canção, na maioria das vezes, elas são dadas nos diálogos entre os dois personagens em suas falas. “Me dá um abraço, Caio, e a gente faz um país”, diz Isabel numa cena, citando o trecho de uma famosa música da cantora Marina Lima. E a peça então, ganha pontos.

Mas para quem assistiu ao espetáculo “Pentagrama”, do grupo Z e Agregados, o qual também tinha no elenco Paula Molina (Isabel) e Vinícius Duarte (Caio), é difícil não tecer comparação com o primeiro ato da peça O que restou de nossos amores. A estrutura dramática é a mesma, com os personagens alternando a narração com os seus diálogos, num cenário vazio de objetos. No entanto, somente para quem assistiu ao espetáculo anterior, essa escolha soará repetitiva, tanto na encenação quanto na atuação, gerando um incômodo passageiro. Portanto, sem demérito para essa peça.

Então, voltemos a ela! O primeiro ato lança um o olhar juvenil sobre o tema da ditadura, o que não impede que todas as mazelas deixadas por ela se aflore no palco, pois, em certa medida, a peça procura articular experiências pessoais com outras sócio históricas. Lembra-nos que mesmo as nossas decisões mais íntimas podem ser governadas por um regime político, no caso um que pretendeu cercear toda e qualquer forma de liberdade. Qual o limite entre as nossas decisões pessoais e aquelas estabelecidas pela sociedade na qual estamos inseridos? No caso da jovem protagonista, ela é forçada a escolher o exílio, como arrebatador de sua dor. Isabel deixa o país de seus horrores da tortura, mas deixa também os seus amores. E revela a dificuldade se recuperar de ambos, mesmo com a opção da volta.

O segundo ato inicia com cenas emocionantes que marcam o reencontro dos personagens. E são realmente emocionantes. E é nesse ato que está o grande trunfo da peça ao trazer cenas utilizando um recurso que faz alusão ao ato de rebobinar as antigas fitas de vídeo cassete. Na peça, com o auxílio do áudio de rebobinar, várias cenas são intercaladas com o uso desse recurso. Assim, elas voltam e se completam, elas voltam, se repetem e se completam, elas voltam, se repetem e se completam. E é isso que a peça parece fazer com o espectador, voltar no tempo, expor a cena, para que possamos completá-la no presente, com todas as possibilidades, tanto políticas quanto emocionais, tanto de nossas escolhas quanto de nossos amores. Da mesma forma, parece tentar compreender, no presente, o que se passou com esse país, o que se passou com as pessoas que tiveram suas vidas dilaceradas por um regime político e como isso se relaciona com a atual situação de nosso país pós golpe de 2016. Um recurso bastante interessante que torna o segundo ato bastante dinâmico. No entanto, a potência do segundo ato é um pouco prejudicada pelo excesso de explicações que carregam no sentimentalismo. Sim, ele é necessário ali, mas está em excesso, com textos longos, explicativos demais que chegam a cansar. Há uma necessidade excessiva de explicação, tanto do personagem Caio quanto da dramaturgia em si.

Mas O que restou de nossos amores tem outros trunfos. A atuação de Paula Molina é um deles. Da mesma forma que Vinícius Duarte convence com o seu frágil Caio. E a música. Tanto pelas referências presentes nos diálogos quanto ela aparece de fato como trilha sonora para compor a cena.

No balanço entre os dois atos, a peça consegue extrair uma poesia, uma emoção, e nos faz reacender o desejo de liberdade, que parece andar um pouco esquecido por alguns brasileiros no momento atual. Com certeza espectador sairá da sala do teatro pensando o que restou daquele momento nele.

Outubro 2017

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Ficha Técnica:
Direção geral e dramaturgia – Thiago Mozer
Supervisão de direção – Rodrigo Portella
Direção de movimento e preparação corporal – Eldon Gramlich
Elenco – Paula Molina e Vinicius Duarte
Produção executiva – Luis Vila Nova
Produção geral – Lorena Lima
Cenografia – Thiago Mozer, Lorena Lima e Luis Vila Nova
Concepção de luz – Daniel Boone
Composição, guitarra e arranjo – Edivan Freitas
Guitarra, gravação e arranjo – Rodolfo Simor
Operação de som – Tom Fonseca
Figurino – Grupo Beta
Designer – Murilo Maifredi
Assessoria de imprensa – Patricia Galleto e Paulo Gois

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Bom Sujeito

Solo de Ivna Messina/Projeto não é flamenco

Se o princípio básico de um espetáculo é emocionar, nesse trabalho temos a união de dois estilos musicais que transbordam emoção, o samba e o flamenco. E essa junção não poderia ser mais produtiva no corpo da bailarina e atriz Ivna Messina.

O que podemos dizer sobre o flamenco? Uma música/dança que tem na sua essência a provocação das emoções?! É pouco. E o espetáculo nos diz muito mais. Flamenco se sustenta no silêncio do corpo. E a bailarina nesse espetáculo se apropria dele como senhora dos movimentos – através das mãos em redemoinhos vibrantes, as expressões faciais marcantes e o sapateado dos pés com passos pulsantes – e traduz  a dor, o abandono, a solidão em alegria, desejo e liberdade.  Assim, como no samba. E o que podemos dizer sobre esse, então? “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é…”, já dizia a canção, tentando nos responder que samba é uma música/dança que pede emoção. E também é pouco.  E os movimentos executados no palco nos dizem que é muito mais.

E o que podemos dizer da mistura do samba e do flamenco juntos? Talvez seja simplório e clichê dizer que a mistura é sempre boa. No entanto, o que vemos é uma maravilhosa mistura de dois gêneros consagrados, nos remetendo não apenas ao histórico milenar do flamenco, mas algo maravilhoso da música criada nessa terra. As danças de Bom Sujeito nos dizem que é isso e muito mais.

E o que podemos dizer da luz? Para compor a emoção do espetáculo, a iluminação, concebida por Carla van den Bergen, baila junto com a personagem. Logo, na primeira cena, a iluminação diz a que veio, dando o tom do espetáculo ao mostrar o sapateado ritmado pelo samba ao fundo. Bom sujeito é também um espetáculo de iluminação, sem que se espere com essa frase um festival de efeitos visuais mirabolantes ou carnavalescos. É simples e funcional, sem deixar de transparecer a emoção pedida em cada cena.

Talvez – e aqui destacamos o “talvez”, porque isso em nada diminui a força do espetáculo – Bom Sujeito só peque no trabalho de voz da bailarina/atriz. Ela canta clássicos do samba, enquanto executa belos movimentos de flamenco. E mesmo entendendo que a dança é o ponto em que ela quer nos prender, talvez fosse necessário um cuidado um pouco maior na execução das músicas, já que essa é a proposta. Talvez falte transpor para a voz a mesma relevante carga emocional do corpo. Mas repito, talvez…

Bom Sujeito é, portanto, um espetáculo emocionante, trazendo as reminiscências de uma mulher, com seus amores e suas dores, antes durante e depois da festa da carne. Uma mulher que faz e se desfaz. Uma mulher que se veste e se despe. E muito mais. Um espetáculo de fantasia, folia, brincadeira, ressaca e melancolia. E assim, fica determinado: “Quem não gosta de flamenco, bom sujeito não é”.

Ficha Técnica:
Direção cênica: Fernando Marques
Direção de arte: Thaís Apolinário
Direção Musical: Letícia Malvares e Roberto Monteiro
Iluminação: Carla van den Bergen
Direção de produção: Ivna Messina
Assistência de produção: Luiz Carlos Cardoso e Patrícia Galleto

 

* escrito em agosto de 2016

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Todas as ruas têm nome de homem

Do grupo Confraria de Teatro

Quantos adjetivos poderiam expressar uma peça teatral: Forte?! Pungente?! Emocionante?! Visceral?! Envolvente?! Enérgica?! Disparadora?!… etc etc etc etc… Todos esses poderiam perfeitamente ser ditos por quem assiste ao espetáculo Todas as ruas têm nome de homem, do grupo Confraria de Teatro. E como poderíamos defini-lo: como uma mensagem política e histórica? Como um grito feminista e feminino?… Uma definição talvez não caiba para esse texto. A peça mexe com as emoções. E potencializa positivamente as questões do universo feminino, já presentes na primeira peça do grupo “Mesas falam e se movem.

O espetáculo, que vai discutir a situação da mulher, mesmo tendo estreado em maio, portanto, antes da notícia do recente estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, toca nessa ferida de forma tal, que poderíamos ter a sensação que esse fato tenha sido o disparador da peça. Mas não foi. E ao mesmo tempo foi. Porque diante da situação de vulnerabilidade da mulher numa sociedade machista como a nossa, fatos como esse acontecem todos os dias. E é disso que trata a peça. E muito mais.

Vamos elencar três pontos nos quais se constrói a dramaturgia da peça. O primeiro é o da narradora e de sua narração, cuja voz, atemporal, feminina e sem memória, nos mostra que, no tempo masculino hegemônico, a figura da mulher é esquecida. Mas é preciso ir além. E, é com essa voz que ela nos guia com seu discurso narrativo. O segundo é texto dramático, que, ao mesmo tempo em que é apresentado ao espectador, é um convite para que esse participe junto, percorrendo as ruas do centro da cidade e participando das vidas das três personagens da peça. Inclusive, ele é convidado, dentro da encenação, a fazer uma escolha. São três caminhos a seguir. O que assistir? Essa escolha é do espectador. Metaforicamente, também é um convite para que o espectador reflita nas suas escolhas em relação à situação de ser mulher na atualidade: tema a ser apresentado no enredo que se segue. Essa narrativa, que traz os elementos da “cartografia do feminino”, pesquisada pelo grupo, é incorporada ao espaço-tempo do acontecimento teatral vivenciado pelo espectador. O terceiro é o cenário no qual se desenvolve a maioria das cenas: elas ocupam as ruas do centro da cidade de Vitória. Percorrem locais nos quais, provavelmente, por medo, depois que escurece nenhuma mulher anda sozinha. A rua é um espaço hostil, por isso, têm nome de homem. O que essas mulheres querem é que a rua seja espaço de liberdade, com nomes de mulheres. E no final da peça isso é dito explicitamente. E não é só elas que querem, todos nós queremos. Mulheres devem ocupar todos os espaços. Esse grito permeia os megafones das cenas da última sequencia do espetáculo.

A exploração desses pontos faz com que a peça tenha um movimento, uma vibração que nos leva a uma proposta de permanecer uma hora e quarenta minutos com os sentimentos e a sensibilidade para as questões do feminino à flor da pele. O tempo todo, sem folga. A cada cena somos levados para ambientes diferentes. A cada cena somos tocados de maneiras diferentes, seja pela indignação, seja pela sensação de injustiça, seja pelo medo, seja pela inércia ou tantos outros sentimentos possíveis, a partir da subjetividade de cada espectador.

Por isso, além de ser desabafo, a peça é também uma forma de luta. Os dados do Mapa da Violência, em 2014, colocam o Espírito Santo como um dos estados com maiores taxas de feminicídio. E isso, está lá, presente na peça. Um dos casos mais emblemáticos do feminicídio no Espírito Santo, o do estupro e assassinato da menina Araceli Cabrera Crespo, está lá. O caso recente do estupro coletivo da adolescente no Rio de Janeiro está lá. Como estão lá tantos outros casos de opressão contra a mulher. Estão lá quatro atrizes dando vida à mulheres que, certamente, estão presentes no nosso cotidiano. É preciso lutar para que a mulher ocupe os espaços da vida das cidades. É preciso lutar pelo direito de ser mulher. E isso é apontado na sinopse da quando diz “Quatro mulheres, em 1925 e em 2016 caminham pela cidade para reconstruir o desaparecimento de uma delas. Algumas coisas permanecem, mas sempre há rua para ser ocupada”. 1925 ou 2016. O tempo é outro, a cidade é outra. Mas “algumas coisas permanecem”.  Dessa forma, a narrativa quer desnudar o nosso olhar sobre a questão de ser mulher. A peça é sim, panfletária, mas não é chata. Ao contrário, essas questões emergem de forma poética. Muitas vezes poeticamente dura, e por vezes, ásperas.

Contraditoriamente, e isso não tira qualquer mérito seu, a peça é dirigida por um homem, Francis Wilker, do grupo brasiliense Teatro do Concreto, que pesquisa sobre encenação no espaço urbano. Da mesma forma, a Dramaturgia é assinada por outro homem, João Dias Turchi, que pesquisa as relações entre cidade, performance e dramaturgia. Essas escolhas sem dúvidas, acertadas, faz com que a apropriação do espaço seja uma das grandes forças da peça. E essa questão também está lá, talvez como justificativa: na peça há referência a um livro no qual uma mulher registra sua busca, mas o livro foi escrito por um homem. No entanto, o que transborda na história apresentada é a forte presença da pesquisa desenvolvida pelas atrizes sobre o universo feminino.

Finalmente é preciso dizer, Todas as ruas têm nome de homem é um grande espetáculo. Um tipo que perdura na mente do espectador, e mesmo após deixarmos o local, ele vai ainda nos seguindo, pedindo amadurecimento do que foi visto; pedindo reflexão.

Vitória, 29 de junho de 2016

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Ficha Técnica:

Criação: Confraria de Teatro
Elenco: Luana Eva, Luciene Camargo, Ludmila Porto e Thiara Pagani
Direção: Francis Wilker
Texto: João Dias Turchi
Preparação corporal: Gracielle Monteiro
Assistentes de cena: Juane Vaillant e Aidê Malanquini
Design gráfico: Eduardo Moraes
Fotografia: Luara Monteiro
Iluminação: Thila Paixão e Julio César

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Eles

Do diretor Marcio Martins

Um mundo em desencanto. Ou o cotidiano desencantado. Esse é o tema para a peça Eles, do diretor Marcio Martins. No palco, dois personagens, sem nomes, convivem juntos, isolados do convívio social. O local é indeterminado, não importa. Sabemos apenas, pela chegada da comida, que se trata de um local próximo a um depósito de lixo. Ali, nesse espaço, os dois personagens manifestam todas as relações que a convivência produz nos seres humanos, seres sociais: relações de poder, de dependência, de afetos, de raiva, de pertencimento, de impaciência etc… Essas relações permeiam todo o espetáculo, não apenas nos diálogos entre os personagens, mas também na iluminação e no cenário. Esse último é composto por apenas duas estruturas de metal em forma de pirâmide (numa alusão à pirâmide social): uma maior, na qual está centrado o poder, no caso, demarcado por quem chegou primeiro (alusão ao poder histórico) e outra menor, ocupada pelo personagem que é dominado.

Os personagens estão ali, mas “eles” estão lá fora. A peça nos conduz à percepção de que apesar do outro (eles) estar lá fora, o outro está em nós. O que prende o outro é o mesmo que nos prende. Por isso, os personagens estão presos à estrutura piramidal por uma corrente – invisível aos olhos do espectador. A corrente os mantêm presos. Mas um deles tem a chave. No entanto, mais importante do que ter a chave é saber o que fazer com ela. Qual o momento de se libertar? Será que queremos nos libertar das correntes que nos prendem? Pode parecer clichê, mas é nesses momentos, aparentemente já esgotados pelo debate ou considerados sem importância, que reside o grande significado e honestidade da peça. As questões, mesmo que largamente debatidas, não se esgotam nessa possibilidade, se quisermos, é claro,  continuar a nos arriscar pelo mundo, como sugere a última cena da peça. Entrementes, trata-se de uma peça que, acima de tudo, evoca as relações entre os homens e nos desperta o desejo do encontro com o outro como possibilidade de apreensão e de relação com o mundo. E isso é muita coisa.

Entre outros méritos, é uma peça que possui um bom roteiro, os personagens cativam e possui bons atores – o jogo entre os dois rende um bom resultado. No entanto, podemos fazer algum senão à dramaturgia. Para mostrar esse mundo em que os personagens estão imersos, ao mesmo tempo num estado de solidão e de enfrentamento dos seus medos, o diretor se vale da repetição de alguns elementos cênicos, em especial, o textual. No início isso funciona muito bem, cria no espectador certa cumplicidade com as situações cotidianas vividas pela grande maioria dos seres humanos. Porém, depois da metade da peça, isso se torna extremamente cansativo, porque bate na mesma tecla ao longo de toda sua duração. Daí parece que o diretor pesou a mão, deixando as repetições soarem excessivas.

Assim, Eles se apresenta como um espetáculo que, modesto em suas ambições, consegue cumprir plenamente seu objetivo, fazendo uma espécie de radiografia da situação social humana por trás daqueles dois personagens. Eles expressam o mal-estar dessa coletividade, mas aponta que sempre há uma possibilidade de saída.

Vitória, 20 de junho de 2016

Eles

foto divulgação/facebook

Ficha Técnica
Direção e Dramaturgia: Márcio Martins
Assistente de Direção: Vanessa Gloria
Produção: Edilamar Fogos
Elenco: Patricia Galleto e Othoniel Cibien
Figurino: Carol Borges
Cenografia: Marcio Martins e Tiago Folador
Engenheiro de Cenografia: Abraão Caldas
Iluminação: Carlos Henrique Felberg
Design Gráfico: Max Goldner

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Vizinhos, do Grupo Z de Teatro

O Grupo Z de Teatro tem sua história marcada por bons espetáculos. Sua recente produção tem dado conta de manter constante a busca por trabalhos relevantes para o cenário do Espírito Santo. A exemplo da força das últimas peças, como Insone – que reflete sobre as questões da utilização do tempo pelo homem contemporâneo, sem espaço para o descanso –, temos agora o seu novo espetáculo,Vizinhos, permeado pela questão da solidão.

A peça é alicerçada pela construção de personagens que atravessam o imaginário da sociedade atual: estamos afundados em nós mesmos porque não temos espaço para compartilhar sentimentos.

Assim, a peça parte do dispositivo, que pode ser encarado como um tema clichê nas produções cênicas, não só do teatro, como do cinema e da televisão: a vida dos vizinhos. O teatro e a literatura são povoados dele por todos os lados; Recado ao senhor do número 903, crônica de Rubem Braga ou O Lixo, conto de Luis Fernando Veríssimo, são exemplos por hora lembrados.

A peça conta a história de dois homens que moram no mesmo andar de um prédio, como tantos outros de nossas cidades, mas não se conhecem e não possuem nenhuma relação, a não ser encontros rotineiros pelas áreas que lhes são comuns. São homens solitários. A solidão permeia a vida de cada um. No enredo, situações cotidianas levam a uma aproximação, desejada, de certa forma, por um deles e rechaçada pelo outro. Aí temos o mote da história. O enfrentamento da solidão é dado de maneiras opostas: um quer dividi-la, o outro quer evitá-la.

Para encenar essas vidas estão seis atores no palco. A peça tem a força da interpretação deles. Os seis atores se revezam na composição dos dois personagens. Três deles fazem um dos vizinhos e os outros três, o outro. Em cena, o personagem é o mesmo, mas cada um com as características marcantes dadas pela interpretação dos atores. Aí está um bom trunfo do espetáculo, uma de suas principais atrações. Nesse ponto, destaca-se a interpretação do ator-bailarino, Luciano Rios, que consegue dar um tom exato para as inseguranças de um dos vizinhos – aquele que quer aproximação. Ao mesmo tempo, temos, para o mesmo vizinho, a interpretação marcante de Carla van den Berguer, que extrai força da fragilidade do personagem. Não que as interpretações dos outros atores em cena não mereçam reconhecimento, mas os dois atores citados, chamam os olhares de forma mais atrativa. Luciano Rios tem uma interpretação magnética, chamando a atenção, mesmo quando o foco da cena não está nele. E isso aqui, não é colocado de forma negativa.

A forma do relato, com marcações bem definidas, é outra boa atração. A marcação das cenas, como passos de dança – notadamente influência da pesquisa de dança-teatro do grupo – não funciona apenas como um mero apoio à cena, mas como um dos seus elementos principais. É também atrativa a maneira como a história é contada: os atores anunciam cada cena, dando-lhe um título, seguindo para a ação. Essa estratégia é fundamental para que o espetáculo aconteça, pois já no título da cena, temos uma idéia do virá em seguida, mas sem estrega total. Uma das cenas, por exemplo, intitulada “Confissões do Cárcere”, se desenvolve na mais completa escuridão, levando o público a interagir diretamente com as emoções dos personagens. Em outra, anunciada como “Stairway to Heaven”, um dos vizinhos diz que tem mania de contar as coisas, como os degraus da escada que sobe e, enquanto desenvolve essa história, simultaneamente os personagens, interpretados por outros atores, vão simulando a subida da escada, com um deles contando as centenas de degraus.

Tem-se aí os elementos para que Vizinhos se aproprie dos clichês temáticos – a solidão nos grandes centros, a relação entre vizinhos, o medo da invasão de privacidade – para fazer um ótimo espetáculo. O tema é clichê, mas o Grupo Z não fica na sua superfície. O espectador é testado a não se deixar apenas se levar pela emoção ou pelo riso provocado pelas situações em cena. Para o Grupo Z, o espectador é convidado a sentir até onde o riso acaba. Por isso, a peça, propositalmente, provoca humor. A dramaturgia do Grupo Z nesse espetáculo, como em outros trabalhos recentes, não abre mão de tratar os temas contemporâneos com certa ironia, com olhos de ver os momentos conflitantes entre aquilo que é e do que poderia ser, se assim fosse a escolha da sociedade. Os conflitos produzidos pelos vizinhos solitários ali aparecem de forma, porque não dizer, heroica. Os vizinhos são heróis porque sobrevivem às condições adversas e enfrentam um inimigo invisível que nos atropela. E eles buscam liberdade. E acreditam nela, embora, cada um, a seu modo, pareça se aprisionar. Assim, Vizinhos, pode ser considerada um grito de liberdade: os personagens querem ser livres dos dias sufocantes e precisam se render um ou outro, mesmo que para isso precisem abrir mão de algo que lhes é caro no momento, a solidão.

 Vitória, março de 2015

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Ficha Técnica:
Dramartugia e direção: Fernando Marques
Elenco: Alexsandra Bertoli, Carla van den Bergen, Daniel Boone, Eldon Gramlich, Ivna Messina, Luciano Rios.
Direção de produção: Carla van den Bergen
Figurinos: Francina Flores
Iluminação: Carla van den Bergen
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Viajante, da Companhia do Outro

A primeira coisa a se perceber a respeito da peça Viajante é a sua estrutura cênica no formato de solo, do ator Luiz Carlos Cardoso. As escolhas cênicas da peça são centradas inteiramente na figura do ator. Isso se configura já na cena inicial, quando o ator se apresenta ao público como tal. Ali está um ator, que anuncia a história que irá contar. Um viajante relembra suas histórias de encontros e afetos por eles deixados. Para isso, o espetáculo ora dá voz ao narrador-ator, ora às personagens: uma mulher que todos os dias vai à praça de uma cidade esperar por alguém e nessa espera vai costurando pássaros de panos; um pai que se despede do filho em um aeroporto; um homem que ao retornar à cidade natal, dentro de um táxi, reflete sobre o autoconhecimento; e um artista de rua confrontado com a polícia. Viajante é um espetáculo verborrágico. Os outros elementos cênicos – cenário, figurino, adereços, luz – quase não aparecem, mesmo que estejam lá. E aí está, contraditoriamente, a força e a fragilidade da peça.

Nesse espetáculo, o ator se apropria do texto de forma apaixonada e extrai dele o melhor possível. Isso fica mais claro quando o ator interpreta o ator-narrador. Talvez, porque, como divulgado, essas histórias tenham partido da vivência do ator e, por isso, em cena, elas se configuram como tal: um relato empolgado de um contador de histórias. No entanto, na composição das personagens coadjuvantes, o ator não dá a mesma medida, nem para o texto, nem para a atuação.

Mas o grande problema da peça é a falta de ação com os objetos em cena. As malas estão lá o tempo todo, mas não viajam com a personagem título e tampouco com as outras personagens por ela encontradas no caminho. Os elementos revelados – que estão dentro da mala – quase não são utilizados. A plateia fica esperando que eles façam parte do espetáculo, que eles emerjam para atravessar as personagens e chegar até ela. Mas isso não se configura. Os objetos estão lá, nas malas, e por lá ficam. Presos.

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Na proposta cênica que se cria, a peça busca dar conta de relatar um conjunto de experiências vivenciadas para a compreensão da personagem título – o viajante – para que mais amplamente o público se reconheça tanto na relação com ele e também com das personagens encontradas. Na intensidade da narrativa, é preciso atentar para o que importa: vivemos o que lembramos ou lembramos o que vivemos. A memória como arcabouço de sentidos. A sensibilidade do diretor Fernando Marques aponta nessa direção. O que une as personagens no palco são as memórias dos encontros do ator e diretor (com outras pessoas e entre eles), expostas para uma ressignificação do público. Ali, as memórias das personagens são também memórias do público. Sempre fica o que tem significado.

Nesse sentindo, podemos arriscar que, talvez, na memória do público, ao relembrar da peça Viajante, fique muito mais a interpretação do ator do que as histórias por ele narradas.

Vitória, fevereiro de 2015

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Mesas Falam e se Movem, do Grupo Confraria de Teatro

É muito rica a forma como o grupo Confraria de Teatro traz para a cena capixaba o espetáculo Mesas falam e se movem. Já as primeiras imagens apresentadas em cena, quando da entrada do espectador no ambiente, criam um ambiente estranho, que de certa forma encanta. Uma grande mesa posta. Uma mesa tão grande que, na dimensão do espetáculo, “fala e se move”. O estranhamento proposto passa pela acomodação do espectador à mesa e nos olhares destinados a ele: é convidado a sentar à mesa, mas ao mesmo tempo lhe é retirado o direito de participar diretamente da encenação. Isso seria um problema, mas as resoluções propostas faz com que isso não se configure nesse espetáculo. Ele nos conduz à sensação de que participamos de alguma forma da vida daquelas mulheres. E o estranhamento se torna cumplicidade à medida que as personagens vão se dilacerando diante dos nossos olhos.

A história envolve três narrativas independentes, mas ao mesmo tempo atravessadas pela temática: a relação entre mães e filhas. Mas, para além dessa relação, a temática é o universo feminino, a partir da visão contrastante de mães e filhas: a opressão feminina, os dilemas existenciais e sexuais, a morte dos entes familiares. E, desta forma, vão sendo contadas as histórias individuas daquelas mulheres, propiciando uma tessitura de tramas que se confundem com tantas outras conhecidas pela plateia. Para isso, as atrizes se revezam nos papeis de mães e filhas. Todas as atrizes conseguem imprimir a força necessária para que suas mães e suas filhas ganhem o espaço e emocionem. Aí reside uma das grandes forças do espetáculo.Tudo é feito de forma sutil, contando com uma dramaticidade localizada, sem excessos.

Outra grande força é a utilização do espaço – no caso, as dependências do Museu Capixaba do Negro. A composição das cenas a partir dos espaços cênicos disponíveis mostra como o grupo pesquisou e se apropriou adequadamente de cada ambiente, inclusive da rua, na cena final (uma surpresa para o público no desfecho, que enriquece significativamente todo o espetáculo). Da mesma forma, o uso do espaço cênico da própria mesa, em torno da qual as histórias são contadas. A mesa e seus pequenos adereços escondem muitos segredos e surpresas reveladas durante a apresentação.

O Grupo Confraria impõe um projeto estético que prima pela qualidade da encenação e do texto, que coloca questões que propiciam o entrelaçamento do feminino com o masculino. A presença masculina a todo tempo se impondo, mesmo na ausência física. Por isso, há um cuidado no ritmo, para que as sensações das personagens atravessem o espaço-tempo e o corpo de quem assiste, colocando em cena o universo feminino sobre a sombra do masculino.

Assim, em seu primeiro espetáculo, o Grupo Confraria demonstra de ser capaz de figurar na cena capixaba não como uma promessa, mas como um grupo atuante, compromissado em nos trazer questões instigantes, encenação primorosa e boas atuações.

Sem dúvidas, 2014 já tem o seu espetáculo do ano!

Vitória, maio de 2014.

mesas - cartaz

mesas - divulgação JUANE VAILLANT                                                                         Foto: Divulgação/Juane Vaillant

 

 

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