Todas as ruas têm nome de homem

Do grupo Confraria de Teatro

Quantos adjetivos poderiam expressar uma peça teatral: Forte?! Pungente?! Emocionante?! Visceral?! Envolvente?! Enérgica?! Disparadora?!… etc etc etc etc… Todos esses poderiam perfeitamente ser ditos por quem assiste ao espetáculo Todas as ruas têm nome de homem, do grupo Confraria de Teatro. E como poderíamos defini-lo: como uma mensagem política e histórica? Como um grito feminista e feminino?… Uma definição talvez não caiba para esse texto. A peça mexe com as emoções. E potencializa positivamente as questões do universo feminino, já presentes na primeira peça do grupo “Mesas falam e se movem.

O espetáculo, que vai discutir a situação da mulher, mesmo tendo estreado em maio, portanto, antes da notícia do recente estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, toca nessa ferida de forma tal, que poderíamos ter a sensação que esse fato tenha sido o disparador da peça. Mas não foi. E ao mesmo tempo foi. Porque diante da situação de vulnerabilidade da mulher numa sociedade machista como a nossa, fatos como esse acontecem todos os dias. E é disso que trata a peça. E muito mais.

Vamos elencar três pontos nos quais se constrói a dramaturgia da peça. O primeiro é o da narradora e de sua narração, cuja voz, atemporal, feminina e sem memória, nos mostra que, no tempo masculino hegemônico, a figura da mulher é esquecida. Mas é preciso ir além. E, é com essa voz que ela nos guia com seu discurso narrativo. O segundo é texto dramático, que, ao mesmo tempo em que é apresentado ao espectador, é um convite para que esse participe junto, percorrendo as ruas do centro da cidade e participando das vidas das três personagens da peça. Inclusive, ele é convidado, dentro da encenação, a fazer uma escolha. São três caminhos a seguir. O que assistir? Essa escolha é do espectador. Metaforicamente, também é um convite para que o espectador reflita nas suas escolhas em relação à situação de ser mulher na atualidade: tema a ser apresentado no enredo que se segue. Essa narrativa, que traz os elementos da “cartografia do feminino”, pesquisada pelo grupo, é incorporada ao espaço-tempo do acontecimento teatral vivenciado pelo espectador. O terceiro é o cenário no qual se desenvolve a maioria das cenas: elas ocupam as ruas do centro da cidade de Vitória. Percorrem locais nos quais, provavelmente, por medo, depois que escurece nenhuma mulher anda sozinha. A rua é um espaço hostil, por isso, têm nome de homem. O que essas mulheres querem é que a rua seja espaço de liberdade, com nomes de mulheres. E no final da peça isso é dito explicitamente. E não é só elas que querem, todos nós queremos. Mulheres devem ocupar todos os espaços. Esse grito permeia os megafones das cenas da última sequencia do espetáculo.

A exploração desses pontos faz com que a peça tenha um movimento, uma vibração que nos leva a uma proposta de permanecer uma hora e quarenta minutos com os sentimentos e a sensibilidade para as questões do feminino à flor da pele. O tempo todo, sem folga. A cada cena somos levados para ambientes diferentes. A cada cena somos tocados de maneiras diferentes, seja pela indignação, seja pela sensação de injustiça, seja pelo medo, seja pela inércia ou tantos outros sentimentos possíveis, a partir da subjetividade de cada espectador.

Por isso, além de ser desabafo, a peça é também uma forma de luta. Os dados do Mapa da Violência, em 2014, colocam o Espírito Santo como um dos estados com maiores taxas de feminicídio. E isso, está lá, presente na peça. Um dos casos mais emblemáticos do feminicídio no Espírito Santo, o do estupro e assassinato da menina Araceli Cabrera Crespo, está lá. O caso recente do estupro coletivo da adolescente no Rio de Janeiro está lá. Como estão lá tantos outros casos de opressão contra a mulher. Estão lá quatro atrizes dando vida à mulheres que, certamente, estão presentes no nosso cotidiano. É preciso lutar para que a mulher ocupe os espaços da vida das cidades. É preciso lutar pelo direito de ser mulher. E isso é apontado na sinopse da quando diz “Quatro mulheres, em 1925 e em 2016 caminham pela cidade para reconstruir o desaparecimento de uma delas. Algumas coisas permanecem, mas sempre há rua para ser ocupada”. 1925 ou 2016. O tempo é outro, a cidade é outra. Mas “algumas coisas permanecem”.  Dessa forma, a narrativa quer desnudar o nosso olhar sobre a questão de ser mulher. A peça é sim, panfletária, mas não é chata. Ao contrário, essas questões emergem de forma poética. Muitas vezes poeticamente dura, e por vezes, ásperas.

Contraditoriamente, e isso não tira qualquer mérito seu, a peça é dirigida por um homem, Francis Wilker, do grupo brasiliense Teatro do Concreto, que pesquisa sobre encenação no espaço urbano. Da mesma forma, a Dramaturgia é assinada por outro homem, João Dias Turchi, que pesquisa as relações entre cidade, performance e dramaturgia. Essas escolhas sem dúvidas, acertadas, faz com que a apropriação do espaço seja uma das grandes forças da peça. E essa questão também está lá, talvez como justificativa: na peça há referência a um livro no qual uma mulher registra sua busca, mas o livro foi escrito por um homem. No entanto, o que transborda na história apresentada é a forte presença da pesquisa desenvolvida pelas atrizes sobre o universo feminino.

Finalmente é preciso dizer, Todas as ruas têm nome de homem é um grande espetáculo. Um tipo que perdura na mente do espectador, e mesmo após deixarmos o local, ele vai ainda nos seguindo, pedindo amadurecimento do que foi visto; pedindo reflexão.

Vitória, 29 de junho de 2016

IMG_20160625_213358

Ficha Técnica:

Criação: Confraria de Teatro
Elenco: Luana Eva, Luciene Camargo, Ludmila Porto e Thiara Pagani
Direção: Francis Wilker
Texto: João Dias Turchi
Preparação corporal: Gracielle Monteiro
Assistentes de cena: Juane Vaillant e Aidê Malanquini
Design gráfico: Eduardo Moraes
Fotografia: Luara Monteiro
Iluminação: Thila Paixão e Julio César

IMG_20160625_204520794

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s