Eles

Do diretor Marcio Martins

Um mundo em desencanto. Ou o cotidiano desencantado. Esse é o tema para a peça Eles, do diretor Marcio Martins. No palco, dois personagens, sem nomes, convivem juntos, isolados do convívio social. O local é indeterminado, não importa. Sabemos apenas, pela chegada da comida, que se trata de um local próximo a um depósito de lixo. Ali, nesse espaço, os dois personagens manifestam todas as relações que a convivência produz nos seres humanos, seres sociais: relações de poder, de dependência, de afetos, de raiva, de pertencimento, de impaciência etc… Essas relações permeiam todo o espetáculo, não apenas nos diálogos entre os personagens, mas também na iluminação e no cenário. Esse último é composto por apenas duas estruturas de metal em forma de pirâmide (numa alusão à pirâmide social): uma maior, na qual está centrado o poder, no caso, demarcado por quem chegou primeiro (alusão ao poder histórico) e outra menor, ocupada pelo personagem que é dominado.

Os personagens estão ali, mas “eles” estão lá fora. A peça nos conduz à percepção de que apesar do outro (eles) estar lá fora, o outro está em nós. O que prende o outro é o mesmo que nos prende. Por isso, os personagens estão presos à estrutura piramidal por uma corrente – invisível aos olhos do espectador. A corrente os mantêm presos. Mas um deles tem a chave. No entanto, mais importante do que ter a chave é saber o que fazer com ela. Qual o momento de se libertar? Será que queremos nos libertar das correntes que nos prendem? Pode parecer clichê, mas é nesses momentos, aparentemente já esgotados pelo debate ou considerados sem importância, que reside o grande significado e honestidade da peça. As questões, mesmo que largamente debatidas, não se esgotam nessa possibilidade, se quisermos, é claro,  continuar a nos arriscar pelo mundo, como sugere a última cena da peça. Entrementes, trata-se de uma peça que, acima de tudo, evoca as relações entre os homens e nos desperta o desejo do encontro com o outro como possibilidade de apreensão e de relação com o mundo. E isso é muita coisa.

Entre outros méritos, é uma peça que possui um bom roteiro, os personagens cativam e possui bons atores – o jogo entre os dois rende um bom resultado. No entanto, podemos fazer algum senão à dramaturgia. Para mostrar esse mundo em que os personagens estão imersos, ao mesmo tempo num estado de solidão e de enfrentamento dos seus medos, o diretor se vale da repetição de alguns elementos cênicos, em especial, o textual. No início isso funciona muito bem, cria no espectador certa cumplicidade com as situações cotidianas vividas pela grande maioria dos seres humanos. Porém, depois da metade da peça, isso se torna extremamente cansativo, porque bate na mesma tecla ao longo de toda sua duração. Daí parece que o diretor pesou a mão, deixando as repetições soarem excessivas.

Assim, Eles se apresenta como um espetáculo que, modesto em suas ambições, consegue cumprir plenamente seu objetivo, fazendo uma espécie de radiografia da situação social humana por trás daqueles dois personagens. Eles expressam o mal-estar dessa coletividade, mas aponta que sempre há uma possibilidade de saída.

Vitória, 20 de junho de 2016

Eles

foto divulgação/facebook

Ficha Técnica
Direção e Dramaturgia: Márcio Martins
Assistente de Direção: Vanessa Gloria
Produção: Edilamar Fogos
Elenco: Patricia Galleto e Othoniel Cibien
Figurino: Carol Borges
Cenografia: Marcio Martins e Tiago Folador
Engenheiro de Cenografia: Abraão Caldas
Iluminação: Carlos Henrique Felberg
Design Gráfico: Max Goldner

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