Vizinhos, do Grupo Z de Teatro

O Grupo Z de Teatro tem sua história marcada por bons espetáculos. Sua recente produção tem dado conta de manter constante a busca por trabalhos relevantes para o cenário do Espírito Santo. A exemplo da força das últimas peças, como Insone – que reflete sobre as questões da utilização do tempo pelo homem contemporâneo, sem espaço para o descanso –, temos agora o seu novo espetáculo,Vizinhos, permeado pela questão da solidão.

A peça é alicerçada pela construção de personagens que atravessam o imaginário da sociedade atual: estamos afundados em nós mesmos porque não temos espaço para compartilhar sentimentos.

Assim, a peça parte do dispositivo, que pode ser encarado como um tema clichê nas produções cênicas, não só do teatro, como do cinema e da televisão: a vida dos vizinhos. O teatro e a literatura são povoados dele por todos os lados; Recado ao senhor do número 903, crônica de Rubem Braga ou O Lixo, conto de Luis Fernando Veríssimo, são exemplos por hora lembrados.

A peça conta a história de dois homens que moram no mesmo andar de um prédio, como tantos outros de nossas cidades, mas não se conhecem e não possuem nenhuma relação, a não ser encontros rotineiros pelas áreas que lhes são comuns. São homens solitários. A solidão permeia a vida de cada um. No enredo, situações cotidianas levam a uma aproximação, desejada, de certa forma, por um deles e rechaçada pelo outro. Aí temos o mote da história. O enfrentamento da solidão é dado de maneiras opostas: um quer dividi-la, o outro quer evitá-la.

Para encenar essas vidas estão seis atores no palco. A peça tem a força da interpretação deles. Os seis atores se revezam na composição dos dois personagens. Três deles fazem um dos vizinhos e os outros três, o outro. Em cena, o personagem é o mesmo, mas cada um com as características marcantes dadas pela interpretação dos atores. Aí está um bom trunfo do espetáculo, uma de suas principais atrações. Nesse ponto, destaca-se a interpretação do ator-bailarino, Luciano Rios, que consegue dar um tom exato para as inseguranças de um dos vizinhos – aquele que quer aproximação. Ao mesmo tempo, temos, para o mesmo vizinho, a interpretação marcante de Carla van den Berguer, que extrai força da fragilidade do personagem. Não que as interpretações dos outros atores em cena não mereçam reconhecimento, mas os dois atores citados, chamam os olhares de forma mais atrativa. Luciano Rios tem uma interpretação magnética, chamando a atenção, mesmo quando o foco da cena não está nele. E isso aqui, não é colocado de forma negativa.

A forma do relato, com marcações bem definidas, é outra boa atração. A marcação das cenas, como passos de dança – notadamente influência da pesquisa de dança-teatro do grupo – não funciona apenas como um mero apoio à cena, mas como um dos seus elementos principais. É também atrativa a maneira como a história é contada: os atores anunciam cada cena, dando-lhe um título, seguindo para a ação. Essa estratégia é fundamental para que o espetáculo aconteça, pois já no título da cena, temos uma idéia do virá em seguida, mas sem estrega total. Uma das cenas, por exemplo, intitulada “Confissões do Cárcere”, se desenvolve na mais completa escuridão, levando o público a interagir diretamente com as emoções dos personagens. Em outra, anunciada como “Stairway to Heaven”, um dos vizinhos diz que tem mania de contar as coisas, como os degraus da escada que sobe e, enquanto desenvolve essa história, simultaneamente os personagens, interpretados por outros atores, vão simulando a subida da escada, com um deles contando as centenas de degraus.

Tem-se aí os elementos para que Vizinhos se aproprie dos clichês temáticos – a solidão nos grandes centros, a relação entre vizinhos, o medo da invasão de privacidade – para fazer um ótimo espetáculo. O tema é clichê, mas o Grupo Z não fica na sua superfície. O espectador é testado a não se deixar apenas se levar pela emoção ou pelo riso provocado pelas situações em cena. Para o Grupo Z, o espectador é convidado a sentir até onde o riso acaba. Por isso, a peça, propositalmente, provoca humor. A dramaturgia do Grupo Z nesse espetáculo, como em outros trabalhos recentes, não abre mão de tratar os temas contemporâneos com certa ironia, com olhos de ver os momentos conflitantes entre aquilo que é e do que poderia ser, se assim fosse a escolha da sociedade. Os conflitos produzidos pelos vizinhos solitários ali aparecem de forma, porque não dizer, heroica. Os vizinhos são heróis porque sobrevivem às condições adversas e enfrentam um inimigo invisível que nos atropela. E eles buscam liberdade. E acreditam nela, embora, cada um, a seu modo, pareça se aprisionar. Assim, Vizinhos, pode ser considerada um grito de liberdade: os personagens querem ser livres dos dias sufocantes e precisam se render um ou outro, mesmo que para isso precisem abrir mão de algo que lhes é caro no momento, a solidão.

 Vitória, março de 2015

vizinhos 1                                                                                                               Foto: Divulgação/facebook
Ficha Técnica:
Dramartugia e direção: Fernando Marques
Elenco: Alexsandra Bertoli, Carla van den Bergen, Daniel Boone, Eldon Gramlich, Ivna Messina, Luciano Rios.
Direção de produção: Carla van den Bergen
Figurinos: Francina Flores
Iluminação: Carla van den Bergen
vizinhos 2                                                                                                                Foto: Divulgação/facebook
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