Viajante, da Companhia do Outro

A primeira coisa a se perceber a respeito da peça Viajante é a sua estrutura cênica no formato de solo, do ator Luiz Carlos Cardoso. As escolhas cênicas da peça são centradas inteiramente na figura do ator. Isso se configura já na cena inicial, quando o ator se apresenta ao público como tal. Ali está um ator, que anuncia a história que irá contar. Um viajante relembra suas histórias de encontros e afetos por eles deixados. Para isso, o espetáculo ora dá voz ao narrador-ator, ora às personagens: uma mulher que todos os dias vai à praça de uma cidade esperar por alguém e nessa espera vai costurando pássaros de panos; um pai que se despede do filho em um aeroporto; um homem que ao retornar à cidade natal, dentro de um táxi, reflete sobre o autoconhecimento; e um artista de rua confrontado com a polícia. Viajante é um espetáculo verborrágico. Os outros elementos cênicos – cenário, figurino, adereços, luz – quase não aparecem, mesmo que estejam lá. E aí está, contraditoriamente, a força e a fragilidade da peça.

Nesse espetáculo, o ator se apropria do texto de forma apaixonada e extrai dele o melhor possível. Isso fica mais claro quando o ator interpreta o ator-narrador. Talvez, porque, como divulgado, essas histórias tenham partido da vivência do ator e, por isso, em cena, elas se configuram como tal: um relato empolgado de um contador de histórias. No entanto, na composição das personagens coadjuvantes, o ator não dá a mesma medida, nem para o texto, nem para a atuação.

Mas o grande problema da peça é a falta de ação com os objetos em cena. As malas estão lá o tempo todo, mas não viajam com a personagem título e tampouco com as outras personagens por ela encontradas no caminho. Os elementos revelados – que estão dentro da mala – quase não são utilizados. A plateia fica esperando que eles façam parte do espetáculo, que eles emerjam para atravessar as personagens e chegar até ela. Mas isso não se configura. Os objetos estão lá, nas malas, e por lá ficam. Presos.

viajante 1                                                                                           Foto: divulgação/facebook

Na proposta cênica que se cria, a peça busca dar conta de relatar um conjunto de experiências vivenciadas para a compreensão da personagem título – o viajante – para que mais amplamente o público se reconheça tanto na relação com ele e também com das personagens encontradas. Na intensidade da narrativa, é preciso atentar para o que importa: vivemos o que lembramos ou lembramos o que vivemos. A memória como arcabouço de sentidos. A sensibilidade do diretor Fernando Marques aponta nessa direção. O que une as personagens no palco são as memórias dos encontros do ator e diretor (com outras pessoas e entre eles), expostas para uma ressignificação do público. Ali, as memórias das personagens são também memórias do público. Sempre fica o que tem significado.

Nesse sentindo, podemos arriscar que, talvez, na memória do público, ao relembrar da peça Viajante, fique muito mais a interpretação do ator do que as histórias por ele narradas.

Vitória, fevereiro de 2015

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