Mesas Falam e se Movem, do Grupo Confraria de Teatro

É muito rica a forma como o grupo Confraria de Teatro traz para a cena capixaba o espetáculo Mesas falam e se movem. Já as primeiras imagens apresentadas em cena, quando da entrada do espectador no ambiente, criam um ambiente estranho, que de certa forma encanta. Uma grande mesa posta. Uma mesa tão grande que, na dimensão do espetáculo, “fala e se move”. O estranhamento proposto passa pela acomodação do espectador à mesa e nos olhares destinados a ele: é convidado a sentar à mesa, mas ao mesmo tempo lhe é retirado o direito de participar diretamente da encenação. Isso seria um problema, mas as resoluções propostas faz com que isso não se configure nesse espetáculo. Ele nos conduz à sensação de que participamos de alguma forma da vida daquelas mulheres. E o estranhamento se torna cumplicidade à medida que as personagens vão se dilacerando diante dos nossos olhos.

A história envolve três narrativas independentes, mas ao mesmo tempo atravessadas pela temática: a relação entre mães e filhas. Mas, para além dessa relação, a temática é o universo feminino, a partir da visão contrastante de mães e filhas: a opressão feminina, os dilemas existenciais e sexuais, a morte dos entes familiares. E, desta forma, vão sendo contadas as histórias individuas daquelas mulheres, propiciando uma tessitura de tramas que se confundem com tantas outras conhecidas pela plateia. Para isso, as atrizes se revezam nos papeis de mães e filhas. Todas as atrizes conseguem imprimir a força necessária para que suas mães e suas filhas ganhem o espaço e emocionem. Aí reside uma das grandes forças do espetáculo.Tudo é feito de forma sutil, contando com uma dramaticidade localizada, sem excessos.

Outra grande força é a utilização do espaço – no caso, as dependências do Museu Capixaba do Negro. A composição das cenas a partir dos espaços cênicos disponíveis mostra como o grupo pesquisou e se apropriou adequadamente de cada ambiente, inclusive da rua, na cena final (uma surpresa para o público no desfecho, que enriquece significativamente todo o espetáculo). Da mesma forma, o uso do espaço cênico da própria mesa, em torno da qual as histórias são contadas. A mesa e seus pequenos adereços escondem muitos segredos e surpresas reveladas durante a apresentação.

O Grupo Confraria impõe um projeto estético que prima pela qualidade da encenação e do texto, que coloca questões que propiciam o entrelaçamento do feminino com o masculino. A presença masculina a todo tempo se impondo, mesmo na ausência física. Por isso, há um cuidado no ritmo, para que as sensações das personagens atravessem o espaço-tempo e o corpo de quem assiste, colocando em cena o universo feminino sobre a sombra do masculino.

Assim, em seu primeiro espetáculo, o Grupo Confraria demonstra de ser capaz de figurar na cena capixaba não como uma promessa, mas como um grupo atuante, compromissado em nos trazer questões instigantes, encenação primorosa e boas atuações.

Sem dúvidas, 2014 já tem o seu espetáculo do ano!

Vitória, maio de 2014.

mesas - cartaz

mesas - divulgação JUANE VAILLANT                                                                         Foto: Divulgação/Juane Vaillant

 

 

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