Chico Prego, da Companhia Makuamba

chico pregoSempre que uma peça pretende levar para o palco um fato histórico, acompanhado por elementos da tradição popular e de forma musical, paira a preocupação do espetáculo cair em clichês e errar a mão. Chico Prego, a peça da Companhia Makuamba, dirigida por Nysio Chysóstomo, conseguiu unir esses elementos de forma acertada. A proposta do trabalho é exatamente contar uma página da nossa história, a Insurreição do Queimado, unindo elementos de música, poesia, brasilidade, e por que, não um toque de capixabismo.

Partimos então ao enredo: os dias e a motivação da revolta dos escravos, no distrito de São José do Queimado, do município de Serra. Um padre convoca os negros a participarem da construção de uma igreja, prometendo atuar junto com seus donos para que cada um fosse alforriado. A revolta, que ficou conhecida como Insurreição do Queimado, nasceu dessa promessa não concretizada de liberdade. Na peça, temos a articulação dos personagens que participaram desse fato histórico, sendo centrada nas figuras dos líderes do movimento: Chico Prego, Elisiário e João da Viúva.

Para contar essa história, grupo se utiliza de diversos elementos da cultura negra, que estão lá desde o primeiro momento: no prólogo, a vinda dos escravos: Yemanjá, a rainha das águas, acompanha o navio negreiro trazendo os negros para serem escravos aqui no Brasil; e ainda a inserção da poesia de Castro Alves, com trechos de Navio Negreiro, dando o tom do espetáculo, a luta pela liberdade. Ao longo da peça outros elementos da cultura afrobrasileira vão aparecendo: estão lá a copeira, o berimbau, os tambores, os orixás, o congo etc. Além do congo, da cultura capixaba, aparece Nossa Senhora da Penha, numa alusão ao milagre atribuído a ela pelo lendário sumiço de Elisiário da prisão, após a revolta ser contida. Mas nada disso sobra no espetáculo; a utilização é sempre de maneira oportuna.

Em cena, os atores dançam, cantam, tocam e trocam de figurino. Muitas vezes, esses elementos estão reunindo numa mesma cena. Reside aí, um dos aspectos mais atraentes em Chico Prego. A história é contada de forma dinâmica. Os objetos cênicos – principalmente os grandes baús que compõem o cenário – são utilizados para transformar os ambientes e dão movimento e ritmo à cena, junto com os atores.

No entanto, Chico Prego tem algumas falhas visíveis: na dramaturgia, apresenta um Chico Prego sem a devida força que justifique o nome da peça – o personagem Elisiário tem uma relevância muito maior no espetáculo. Chico Prego não é o protagonista. Não estamos querendo dizer que o protagonismo se faz necessário. A peça retrata um evento histórico, uma revolta popular, na qual o grande protagonista é um sujeito coletivo, os escravos da região. Contraditoriamente, não estamos querendo reafirmar com isso o nosso modelo de contar história, centrado no individualismo, na figura do herói, no caso o Chico Prego. Mas levando-se seu nome ao título do espetáculo, espera-se que, com ele, possamos conhecer um pouco mais da vida e da força desse homem. Mas a peça não proporciona isso. Talvez isso se deva a uma falha tanto na dramaturgia quanto na atuação de Nill Shaefer, que faz o personagem título. A sua atuação precisa ser amadurecida, ela não tem a força pretendida pelo espetáculo. O mesmo podemos dizer de outras atuações, como o padre, do jovem Rafael Machado e ainda Bené Freire em suas aparições. Podemos apontar ainda algumas passagens que apresentam certo didatismo, principalmente, quando se vai contar sobre a  insurreição, o que fica um pouco destoado da proposta dinâmica da peça.  Mas nada disso é suficiente para tirar os méritos dessa peça autêntica, simpática e que busca o tão desejado diálogo com o público.

Um dos pontos fortes da peça é a atuação das mulheres. Nenhuma delas tem um papel definido, funcionando como coringas, transitando, cada uma, por vários personagens. No entanto, rendem bons momentos na trama. A aparição delas, na maioria das vezes, serve para costurar a história, recurso muito bem empregado, aliás.

Em Chico Prego há toques poéticos, históricos e dramáticos – esses últimos com menos força – que certamente conseguem despertar certa sensibilidade no público para o desejo latente de liberdade. A história de Queimado no palco leva certo brilho ao olhar do espectador, frente a um momento do passado que busca não ser esquecido. E que nunca deve ser esquecido. Mérito da peça!chico prego mulhres

Vitória, março de 2013.

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7 Comentários

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7 Respostas para “Chico Prego, da Companhia Makuamba

  1. Realidade es

    Este blog é um desrespeito com a classe artística capixaba, que já sobrevive aos trancos e barrancos e ainda tem que aceitar um pessoa sem a menor formação, como o Senhor Ronald, ser considerado um crítico. Isto reflete a mediocridade da cidade em que vivemos, o que passamos, um ator fazendo algo desse tipo. Uma pena, uma vergonha. Aprenda a se colocar no seu devido lugar,e aos que acham que críticas são ótimas, revejam. Elas são relevantes sim, quando feitas por pessoas que sabem o que dizem, que possuem formação profissional e não um mero cursinho na Fafi e mal sabe o que está acontecendo na cena teatral brasileira pois está preso aos espetáculos que circulam por vitória, somente. Acorda, classe, acorda Ronald.

    • Miulda

      Eu discordo que esse blog seja um desrespeito à classe artística capixaba, afinal, ele produz justamente o que pedimos o tempo todo – liberdade de expressão. Concordo quando diz que a mesma vive aos trancos e barrancos e que as críticas são sempre relevantes, afinal quando as opiniões são divergentes surge espaço para análise e como consequência, o que necessariamente não é
      regra, o processo de mudança. Agora, dizer que a Fafi é um “mero cursinho”, isso sim é um desrespeito muito grande com a classe artística capixaba. É do “cursinho” da Fafi que saem muitos artistas capixabas. Não é o melhor modelo de curso do mundo, há muitas dificuldades, muitas falhas, não podemos negar, mas no momento é o que temos de melhor! E devemos valorizar isso.

  2. Não vejo em nenhum momento Ronald se posicionando como crítico. Vejo alguém exercitando um olhar sobre arte. É salutar para quem assiste e para quem produz teatro. A figura do crítico de jornal especializado e dono da verdade já está em decadência nas melhores praças. São blogs, revistas e outros meios virtuais que estão fazendo emergir o verdadeiro debate sobre a produção contemporânea de arte, seja cinema, literatura ou teatro. São novos tempos. Podem ser dolorosos para uns ou prazerosos para outros. Mas são novos tempos. Negar isso é ignorar o sol de verão ao meio-dia em céu limpo. Digo isso de peito aberto, afinal Ronald meteu o pau no espetáculo da minha esposa. Concordei com algumas coisas e discordei de outras. O produto disso só pode ser um: o engrandecimento de todos.

  3. Na realidade, não vejo de nesse blog de maneira alguma blog desrespeito a qualquer tipo de classe artística, capixaba, nacional ou de onde for.
    Quanto a formação do autor do mesmo, peço que se informe melhor pois além de ‘um mero cursinho na Fafi’, Ronald é formado em Jornalismo. (digamos de passagem, a Fafi foi durante muito tempo a única formação possível dentro do Estado – rezemos pela graduação da UVV sobreviver)
    Realmente talvez somente essa graduação não o habilite a ser ‘Crítico de Teatro’. E nem mesmo sua formação em outra área, Ciências Biológicas. Concordo que tais formações não o habilitem para o exercício de ‘Crítico de Teatro’. (Embora creia que como jornalista ele estaria mais do que habilitado para dar sua opinião sobre vários assuntos). Creio porém que em nenhum momento Ronald pretendeu se posicionar o tal. Ele criou um blog para expor suas opiniões a respeito de uma área que lhe é de interesse. Gostaria que outras pessoas se dispusessem a fazer o mesmo. Ou será que devemos esperar por um Mesias, detentor de títulos, possuidor do ‘Knowledge’ Teatral, capaz de nos apontar onde está a luz, para onde devemos ir, o que é bom ou ruim e sentados na plateia seremos iluminados pelo Douto saindo de nossa ignorância e de nosso estado claudicante? Não creio que seja o que esteja sugerindo mas as iniciativas devem partir de algum lugar, e não apenas de uma, no caso infelizmente, inexistente ‘Academia’.
    A dita ‘classe artística capixaba’ precisa de desvincular de certas e velhas desculpas. Amadurecer e encarar críticas ‘boas’ ou ‘ruins’ como um (bom) sinal. Sinal de que se está se PRODUZINDO no Estado e tal produção está gerando reflexão e debate (o que deveria ser visto como uma conquista e não com temor).
    Falando em temor, Ronald publica suas (ao meu ver muito sensatas) opiniões nesse blog, creio, com certo receio e com muito cuidado. Mas acima de tudo o faz com honestidade, critério e ética. Ao contrário de alguns não se esconde atrás de uma muito tentadora anonimidade que a internet possibilita, e não faz ataques pessoais a ninguém. Ao contrário faz suas ponderações com a mesma calma e franqueza que o faria numa mesa de bar entre amigos. E muitos dos casos, dos textos desse blog, ele está falando de e com seus amigos.
    Precisamos sair de nossas redomas e nos aprofundar mais sobre o nosso fazer artístico e ir alem dos tampinhas nas costas e dos sorrisos amarelos nos finais dos espetáculos e sermos mais curiosos sobre qual impacto nosso trabalho causa/repercute/reverbera em nosso público (diverso) e estarmos preparados para as (diversas) reações. Talvez isso não faça muito bem para no nosso Ego, mas pode fazer maravilhas para deixarmos de lado as muletas e começar a caminhar rumo a maturidade artística de cabeça erguida.
    Ah sim. Em um ponto concordo muito com você: precisamos acordar!!

    Carlos Rosado – membro da ‘classe artística capixaba’.

    • Realidade es

      Um ensaio sobre a cegueira é o que vejo, não adianta falar, não adianta. Ninguém aqui é o dono da verdade e nem atacar é o intuito. Encontra-se aqui uma pessoa desesperada com o futuro artístico do seu estado, sua cultura, e estas ” pequenas” atitudes levianas que formam esse futuro, mas todo mundo acha “ok”, “tudo bem”, sem ao menos perceber que não, não está tudo bem, merecemos respeito, isso aqui não é produtivo, ele é artista, deveria saber disso, ele sabe que não tem formação para isso, mas aqui no es pode. É muito triste ver os coletivos e artistas de outros estados falarem do nosso, de como fazemos, dos equívos. Criamos monstros sem perceber e depois já era. Eu como artista acho triste, acho vergonhoso um programa universitário levantar o Ronald como crítico teatral, ele não é, e não tenho nenhuma questão pessoal contra ele, mas ele não é isso. Mas aqui as pessoas fazem isso, os próprios artistas se burlam e acham normal. Eu valorizo a minha profissão, respeito demais seus profissionais, sua classe e me coloco no meu lugar, mas artista aqui sempre quer ser mais e o pior, consegue.

  4. Para quem gosta e acredita parece ser legal !

  5. Na verdade Ronald quando preparei o roteiro sempre tive a intenção de não protagonizar o Chico como peça principal, mas sobretudo se tornar um pretexto que tem como pano de fundo a Insurreição do Queimado, mas gostei muito de seus comentários, continue, o cenário teatral capixaba precisa de pessoas que façam reflexões sobre a produção cultural das artes cênicas. Boa sorte. Nysio Chrysostomo

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