Tempos de Areia, do Repertório de Artes Cênicas e cia

O novo trabalho do Repertorio de Artes Cênicas e cia Tempos de areia traz a história de uma vila que foi soterrada pela areia, bem como os transtornos da chegada de uma multinacional nas redondezas – uma alusão direta à vila de Itaúnas, situada em Conceição da Barra, norte do estado. As lendas a respeito do soterramento da vila já fazem parte do imaginário popular capixaba, de modo que a peça não traz nada de novo e tampouco de inovador no modo de contar essa história.

No prólogo temos uma figura futurística, quase robótica, que recebe o público e anuncia que a plateia faz parte de um grupo seleto que aproveitará as maravilhas tecnológicas de uma empresa de moradia, capaz de recompor o ecossistema local para o bem estar de quem possa pagar. A utilização do recurso de ficção científica (abordada levemente pela peça), apresentando um futuro próximo e devastado, sem a presença de ecossistemas sustentáveis, sem plantas e sem animais, poderia cumprir o papel que esse tipo de literatura desperta: espelhado no mundo real, o fictício proporciona divagações de questões cotidianas presentes. No entanto, não há uma explicação plausível que justifique a mudança social pela qual o mundo passou para esse futuro, não tão distante. Nem amparo científico. O cientista em cena não explica nada. Isso não faria falta se o restante do roteiro conseguisse dar conta de apresentar uma história cativante ou fizesse uma crítica social e ambiental contundente à atual situação em que encontra os moradores com a instalação da multinacional de celulose. Mas não faz nenhuma coisa nem outra. Tempos de areia não se configura como uma história da vila de pescadores, nem como uma história de amor e tampouco como crítica social. Paira no superficial dos pontos levantados.

A história de amor poderia render uma boa peça, mas não rende. O amor de Rafaela e Antônio não traz para o palco a força que as palavras contadas pela atriz diz ter. A personagem de Rafaela diz que foi a partida de Antônio a razão do soterramento da vila. Mas o flash back utilizado para contar a história de amor dos dois rende um dos piores momentos da peça. O amor apresentado não moveria nem um grão de areia, quiçá teria a força para soterrar uma vila inteira.

Então, restaria a história do soterramento da vila como possibilidade para o palco. Mas também ela não ocorre. A história oral conhecida do soterramento causado pela troca dos santos passa pelo palco de forma nada empolgante.

Fora isso, o que poderia salvar o espetáculo seria atuação dos atores. Mas infelizmente não observamos a boa atuação dos atores do grupo, como em outros trabalhos. Não temos a presença de palco marcante de Nícolas Corres Lopes e Roberta Portela que já observamos em outros espetáculos, como no ótimo Bernarda, por detrás das paredes, por exemplo. A construção dos personagens possui visíveis rachaduras, que a tela protetora do cenário não nos impede de enxergar.

E para terminar, podemos ainda nos perguntar: onde está a presença da dramaturga Nieve Matos em Tempos de areia? Não conseguimos enxergar ali as características de seu teatro, que vimos em trabalhos anteriores. E não estamos querendo dizer que um diretor não possa mudar ou transformar sua forma de trabalho. A diretora já deu provas de sua marca em trabalhos do Repertório, como Bernarda, por detrás das paredes e até mesmo nos trabalhos com seus alunos da Fafi (Homens de papel, em 2010; Ubu que pariu!, de 2011 e Computador, de 2012): um trabalho pulsante, atrativo, que não vemos em Tempos de Areia.

Assim, em Tempos de areia, os elementos para a construção de um bom espetáculo estão lá, mas faltou o crucial: o grupo comprar a própria ideia, e não só apresentá-la.

Tempos de areia

Vitória, março de 2013

Foto: Luara Monteiro

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