Sonata para despertar, do Repertório de Artes Cênicas

O teatro mais significativo feito hoje no Espírito Santo passa pelos grupos organizados e estáveis. E não estamos nos referindo à estabilidade financeira, que todos já sabemos o quão difícil é viver de artes cênicas por essas bandas. A estabilidade é aquela baseada na estruturação do grupo como suporte ao trabalho de elaboração de um espetáculo. E isso se reflete diretamente no produto final a ser apresentado ao público. É assim que percebemos o trabalho Sonata para despertar, do Repertório Artes Cênicas.

O grupo, formado em 2009, vem com esse espetáculo confirmar a elaboração de um processo consistente de pesquisa em dramaturgia. Com esse novo espetáculo que alia teatro e dança, o grupo  traz para o palco a inconstância do tempo e sua brutalidade cotidiana. Mas tudo isso de uma maneira diluída no tempo da dança, da música e da interpretação da atriz. Baseado no conto “Nunca é tarde, sempre é tarde”, de Silvio Fiorani, Sonata para despertar é um solo (com a atriz Roberta Portela e direção de Antonio Apolinário – da Cia paulista São Genésio) que apresenta uma personagem oscilando entre sonho e realidade, entre o que é e o que poderia ser, entre a secretária (real) e a bailarina (ideal).

A estrutura do trabalho se encaixa na narrativa do teatro-dança. E como tal assume o teatro para desnudar o seu processo de construção e reconhece-se como dança, mesmo que ali tenham os elementos para ela seja identificada como teatro. Valendo-se desse resultado cênico, usa de forma consciente e confortável seus elementos: a livre associação entre as cenas e a montagem aleatória, de fragmentação e repetição. E mais precisamente, como arte contemporânea, explora o corpo e seus estados.

No teatro-dança, o corpo é o meio pelo qual o ator-bailarino revela suas emoções. No caso dessa peça, as emoções são instigadas pelo texto, mas não deixam de refletir os anseios da sociedade no qual o escritor do conto, a atriz, o diretor e o restante da equipe estão inseridos. São essas emoções – medos, inquietações, alegrias, amores etc – que, vindas do interior da atriz-bailarina, movimentam seu corpo. Isso é traduzido em imagens reinventadas pelo corpo, apresentadas ao espectador.

Reside aí a grande força desse tipo de espetáculo e que Sonata para despertar se apropria bem. O espectador tem a possibilidade – e de maneira quase obrigatória – de criar suas conexões interpretativas, dando-lhe uma maior liberdade de construção e fruição. Atinge a máxima de que o espetáculo se constrói no espectador.

No entanto, em Sonata para despertar, há uma opção errônea num momento que mais poderia ser aproveitado, a utilização do recurso de improvisação. Num certo momento a atriz interage diretamente com a plateia. Aí poderia estar o grande diferencial desse espetáculo. Mas é justamente nessa interação que a peça perde sua força. Vemos uma atitude forçada da atriz na tentativa de diálogo com o público aparentado improviso não em sua forma artística, e sim, em falta de preparo para esse jogo. A improvisação não se completa e fica a sensação do não ocorrido.

Mesmo assim, o espetáculo não fica comprometido. O que há de mais encantador em Sonata para despertar, é sem dúvida, o equilíbrio entre o teatro e dança, que na realidade estão em primeiro plano para apresentar a inconstância humana no palco. Construído primeiramente numa sequencia de cenas que compõe o espetáculo, é na imagem corporal, composta sempre de forma muito cuidadosa, que este equilíbrio se manifesta. Assim, mais uma vez, o grupo Repertório de Artes Cênicas, destaca-se no cenário capixaba com uma obra preocupada com os aspectos formais e que detém o discurso preterido, sempre aliado à pesquisa de linguagens cênicas.

Vitória, maio de 2012

SONATA

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