A ORDINÁRIA, do Grupo Teatro Empório

O cinismo domina o mundo. Não há lugar para a inocência. A moralidade das instituições é sempre questionada e quase sempre culpada no veredicto que delas fazemos. É assim que se apresenta a peça A ordinária, do Grupo Teatro Empório.

A dramaturgia se apresenta como um melodrama. Esse gênero busca mostrar o homem comum, nos levando a duvidar de heróis; a limitação da existência humana é realçada. Mas para isso, dá preferência a enredos sentimentais, de fácil apelo popular. Com esses princípios, o melodrama se assume como uma moderna variedade de entretenimento.

A Ordinária se vale de todas essas características. Dentro da proposta do melodrama, a peça segue bem sua estrutura: lá está a oposição das personagens entre vício e virtude; também estão lá os momentos de desespero alternados com serenidade ou euforia. Dessa forma, a escolha foi acertada, uma vez que assim, dialoga bem com o público. O melodrama busca a sintonia com o público. Em A ordinária, percebe-se claramente a intenção central – e jamais negada – do melodrama, de satisfazer a platéia. Compreende-se que seja assim.

O melodrama carrega por si próprio o rótulo negativo de ser simplório e apelativo. E esse risco o grupo correu, quando optou pelo gênero. 

Dosando os elementos clichês próprio do melodrama, com outros elementos da atualidade, como, por exemplo, o ritmo das cenas e a mudança do cenário – feita ao sabor da platéia, pelos próprios atores –, a dramaturgia criada consegue em alguns momentos prender a atenção do público.

A peça é inspirada livremente nos textos de crônicas de Nelson Rodrigues (mais uma vez a utilização do melodrama que assume certo ar de crônica), e aparecem por lá vários elementos que povoam a sua dramaturgia. Nas palavras de Sábato Magaldi sobre Nelson, “o mundo se coloca para ele como o lugar do pecado, e as suas criaturas pendem entre as mais severas proibições e o prazer de infrigí-las”.  A ordinária, revela total fragilidade quando precisa revelar esse mundo. O drama familiar de Cecília – a ordinária em questão -, não provoca o espectador, mesmo com a escolha do gênero. O desenrolar da história com seus conflitos não faz o sangue pulsar mais forte nas veias. Não dá para sair do teatro com as emoções remexidas. É entretenimento.

Isso se deve em grande parte à atuação dos atores, uma das coisas que mais incomoda em A ordinária. Os atores são muito jovens e não convencem na composição de personagens de idade madura. A impressão é que os jovens atores não cabem dentro das personagens (o drama das personagens soa grande demais para a idade dos atores). E a qualidade do espetáculo fica comprometida.

Não que atores jovens não possam fazer papéis de pessoas maduras, mas o trabalho de composição, então, deveria ser melhor elaborado. Em A ordinária a composição é frágil. As situações vividas pelas personagens são demasiadas para os atores. Falta maturidade dos atores para fazer personagens maduros. Maturidade etária e maturidade cênica.

Nesse contexto, os atores que ganham destaque na peça são justamente os que fazem os personagens jovens: Thiara Pagani (mesmo com uma composição exagerada, convence com sua garota mimada) e Diogo Reis, como o jovem apaixonado pelo marido da irmã. Ali, nesses personagens, eles não estão deslocados e rendem bons momentos no espetáculo.

Rende bons momentos também a enfermeira apresentada por Stace Mayka. O time cômico da atriz funciona bem na maioria das cenas em que aparece. Pena que suas cenas são poucas; seu potencial poderia ser melhor aproveitado.

 Seguindo a proposta, o desenlace da história não é surpreendente, uma vez que o espetáculo se apresenta como um dramalhão. Sabe-se desde o início que a morte estará presente para colocar fim às mazelas apresentadas, uma vez que não damos conta da hipocrisia gerada por nós mesmos.

O grupo vale-se dessa e de outras formas de identificação de temas e convenções aceitas pelo público. E, assim, talvez peque na escolha do cenário. Nele há três portas que se movimentam transformando o espaço. Elas são móveis, manipuladas pelos próprios atores. O recurso é usado com freqüência no teatro. Em A ordinária, é usado para dar ritmo às cenas e, pelas portas, os atores entram e saem do palco. No entanto, há um excesso de movimentação e as mudanças, às vezes, parecem gratuitas. Não funciona nem mesmo como recurso metafórico – há várias portas e não há saída. Dessa forma, o uso desse recurso aparece apenas como uma escolha estética e não como elemento que dialoga com o restante; é somente um acessório.

 A ordinária ganha relevância no cenário capixaba por ser mais uma peça do Grupo Teatro Empório. Mais uma importante empreitada do grupo, que se arrisca e produz espetáculos. E transitam por vários gêneros, buscando encontrar sua marca. Os jovens atores se aventuram e se lançam. Os eventuais tropeços são a prova concreta que o grupo está trilhando um caminho necessário dentro da cena teatral do Espírito Santo.

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2 Comentários

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2 Respostas para “A ORDINÁRIA, do Grupo Teatro Empório

  1. Larissa Roar

    O Grupo de Teatro Empório nos surpreende a cada espetáculo, gostei bastante, os jovens tem um dos grupos mais importantes na cena capixaba atual. Tomara que venham mais e mais artistas que tenham a mesma coragem e paixão pela arte.
    Não tenho bagagem para escrever, nem estudo artes, gostei do espaço que abriu para qualquer um que queira simplesmente se expressar, parabéns pela iniciativa.

  2. Não conhecia este seu lado, Ronald. Tá mandando bem demais.

    Abraços.

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