Todas as ruas têm nome de homem

Do grupo Confraria de Teatro

Quantos adjetivos poderiam expressar uma peça teatral: Forte?! Pungente?! Emocionante?! Visceral?! Envolvente?! Enérgica?! Disparadora?!… etc etc etc etc… Todos esses poderiam perfeitamente ser ditos por quem assiste ao espetáculo Todas as ruas têm nome de homem, do grupo Confraria de Teatro. E como poderíamos defini-lo: como uma mensagem política e histórica? Como um grito feminista e feminino?… Uma definição talvez não caiba para esse texto. A peça mexe com as emoções. E potencializa positivamente as questões do universo feminino, já presentes na primeira peça do grupo “Mesas falam e se movem.

O espetáculo, que vai discutir a situação da mulher, mesmo tendo estreado em maio, portanto, antes da notícia do recente estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, toca nessa ferida de forma tal, que poderíamos ter a sensação que esse fato tenha sido o disparador da peça. Mas não foi. E ao mesmo tempo foi. Porque diante da situação de vulnerabilidade da mulher numa sociedade machista como a nossa, fatos como esse acontecem todos os dias. E é disso que trata a peça. E muito mais.

Vamos elencar três pontos nos quais se constrói a dramaturgia da peça. O primeiro é o da narradora e de sua narração, cuja voz, atemporal, feminina e sem memória, nos mostra que, no tempo masculino hegemônico, a figura da mulher é esquecida. Mas é preciso ir além. E, é com essa voz que ela nos guia com seu discurso narrativo. O segundo é texto dramático, que, ao mesmo tempo em que é apresentado ao espectador, é um convite para que esse participe junto, percorrendo as ruas do centro da cidade e participando das vidas das três personagens da peça. Inclusive, ele é convidado, dentro da encenação, a fazer uma escolha. São três caminhos a seguir. O que assistir? Essa escolha é do espectador. Metaforicamente, também é um convite para que o espectador reflita nas suas escolhas em relação à situação de ser mulher na atualidade: tema a ser apresentado no enredo que se segue. Essa narrativa, que traz os elementos da “cartografia do feminino”, pesquisada pelo grupo, é incorporada ao espaço-tempo do acontecimento teatral vivenciado pelo espectador. O terceiro é o cenário no qual se desenvolve a maioria das cenas: elas ocupam as ruas do centro da cidade de Vitória. Percorrem locais nos quais, provavelmente, por medo, depois que escurece nenhuma mulher anda sozinha. A rua é um espaço hostil, por isso, têm nome de homem. O que essas mulheres querem é que a rua seja espaço de liberdade, com nomes de mulheres. E no final da peça isso é dito explicitamente. E não é só elas que querem, todos nós queremos. Mulheres devem ocupar todos os espaços. Esse grito permeia os megafones das cenas da última sequencia do espetáculo.

A exploração desses pontos faz com que a peça tenha um movimento, uma vibração que nos leva a uma proposta de permanecer uma hora e quarenta minutos com os sentimentos e a sensibilidade para as questões do feminino à flor da pele. O tempo todo, sem folga. A cada cena somos levados para ambientes diferentes. A cada cena somos tocados de maneiras diferentes, seja pela indignação, seja pela sensação de injustiça, seja pelo medo, seja pela inércia ou tantos outros sentimentos possíveis, a partir da subjetividade de cada espectador.

Por isso, além de ser desabafo, a peça é também uma forma de luta. Os dados do Mapa da Violência, em 2014, colocam o Espírito Santo como um dos estados com maiores taxas de feminicídio. E isso, está lá, presente na peça. Um dos casos mais emblemáticos do feminicídio no Espírito Santo, o do estupro e assassinato da menina Araceli Cabrera Crespo, está lá. O caso recente do estupro coletivo da adolescente no Rio de Janeiro está lá. Como estão lá tantos outros casos de opressão contra a mulher. Estão lá quatro atrizes dando vida à mulheres que, certamente, estão presentes no nosso cotidiano. É preciso lutar para que a mulher ocupe os espaços da vida das cidades. É preciso lutar pelo direito de ser mulher. E isso é apontado na sinopse da quando diz “Quatro mulheres, em 1925 e em 2016 caminham pela cidade para reconstruir o desaparecimento de uma delas. Algumas coisas permanecem, mas sempre há rua para ser ocupada”. 1925 ou 2016. O tempo é outro, a cidade é outra. Mas “algumas coisas permanecem”.  Dessa forma, a narrativa quer desnudar o nosso olhar sobre a questão de ser mulher. A peça é sim, panfletária, mas não é chata. Ao contrário, essas questões emergem de forma poética. Muitas vezes poeticamente dura, e por vezes, ásperas.

Contraditoriamente, e isso não tira qualquer mérito seu, a peça é dirigida por um homem, Francis Wilker, do grupo brasiliense Teatro do Concreto, que pesquisa sobre encenação no espaço urbano. Da mesma forma, a Dramaturgia é assinada por outro homem, João Dias Turchi, que pesquisa as relações entre cidade, performance e dramaturgia. Essas escolhas sem dúvidas, acertadas, faz com que a apropriação do espaço seja uma das grandes forças da peça. E essa questão também está lá, talvez como justificativa: na peça há referência a um livro no qual uma mulher registra sua busca, mas o livro foi escrito por um homem. No entanto, o que transborda na história apresentada é a forte presença da pesquisa desenvolvida pelas atrizes sobre o universo feminino.

Finalmente é preciso dizer, Todas as ruas têm nome de homem é um grande espetáculo. Um tipo que perdura na mente do espectador, e mesmo após deixarmos o local, ele vai ainda nos seguindo, pedindo amadurecimento do que foi visto; pedindo reflexão.

Vitória, 29 de junho de 2016

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Ficha Técnica:

Criação: Confraria de Teatro
Elenco: Luana Eva, Luciene Camargo, Ludmila Porto e Thiara Pagani
Direção: Francis Wilker
Texto: João Dias Turchi
Preparação corporal: Gracielle Monteiro
Assistentes de cena: Juane Vaillant e Aidê Malanquini
Design gráfico: Eduardo Moraes
Fotografia: Luara Monteiro
Iluminação: Thila Paixão e Julio César

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Eles

Do diretor Marcio Martins

Um mundo em desencanto. Ou o cotidiano desencantado. Esse é o tema para a peça Eles, do diretor Marcio Martins. No palco, dois personagens, sem nomes, convivem juntos, isolados do convívio social. O local é indeterminado, não importa. Sabemos apenas, pela chegada da comida, que se trata de um local próximo a um depósito de lixo. Ali, nesse espaço, os dois personagens manifestam todas as relações que a convivência produz nos seres humanos, seres sociais: relações de poder, de dependência, de afetos, de raiva, de pertencimento, de impaciência etc… Essas relações permeiam todo o espetáculo, não apenas nos diálogos entre os personagens, mas também na iluminação e no cenário. Esse último é composto por apenas duas estruturas de metal em forma de pirâmide (numa alusão à pirâmide social): uma maior, na qual está centrado o poder, no caso, demarcado por quem chegou primeiro (alusão ao poder histórico) e outra menor, ocupada pelo personagem que é dominado.

Os personagens estão ali, mas “eles” estão lá fora. A peça nos conduz à percepção de que apesar do outro (eles) estar lá fora, o outro está em nós. O que prende o outro é o mesmo que nos prende. Por isso, os personagens estão presos à estrutura piramidal por uma corrente – invisível aos olhos do espectador. A corrente os mantêm presos. Mas um deles tem a chave. No entanto, mais importante do que ter a chave é saber o que fazer com ela. Qual o momento de se libertar? Será que queremos nos libertar das correntes que nos prendem? Pode parecer clichê, mas é nesses momentos, aparentemente já esgotados pelo debate ou considerados sem importância, que reside o grande significado e honestidade da peça. As questões, mesmo que largamente debatidas, não se esgotam nessa possibilidade, se quisermos, é claro,  continuar a nos arriscar pelo mundo, como sugere a última cena da peça. Entrementes, trata-se de uma peça que, acima de tudo, evoca as relações entre os homens e nos desperta o desejo do encontro com o outro como possibilidade de apreensão e de relação com o mundo. E isso é muita coisa.

Entre outros méritos, é uma peça que possui um bom roteiro, os personagens cativam e possui bons atores – o jogo entre os dois rende um bom resultado. No entanto, podemos fazer algum senão à dramaturgia. Para mostrar esse mundo em que os personagens estão imersos, ao mesmo tempo num estado de solidão e de enfrentamento dos seus medos, o diretor se vale da repetição de alguns elementos cênicos, em especial, o textual. No início isso funciona muito bem, cria no espectador certa cumplicidade com as situações cotidianas vividas pela grande maioria dos seres humanos. Porém, depois da metade da peça, isso se torna extremamente cansativo, porque bate na mesma tecla ao longo de toda sua duração. Daí parece que o diretor pesou a mão, deixando as repetições soarem excessivas.

Assim, Eles se apresenta como um espetáculo que, modesto em suas ambições, consegue cumprir plenamente seu objetivo, fazendo uma espécie de radiografia da situação social humana por trás daqueles dois personagens. Eles expressam o mal-estar dessa coletividade, mas aponta que sempre há uma possibilidade de saída.

Vitória, 20 de junho de 2016

Eles

foto divulgação/facebook

Ficha Técnica
Direção e Dramaturgia: Márcio Martins
Assistente de Direção: Vanessa Gloria
Produção: Edilamar Fogos
Elenco: Patricia Galleto e Othoniel Cibien
Figurino: Carol Borges
Cenografia: Marcio Martins e Tiago Folador
Engenheiro de Cenografia: Abraão Caldas
Iluminação: Carlos Henrique Felberg
Design Gráfico: Max Goldner

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Vizinhos, do Grupo Z de Teatro

O Grupo Z de Teatro tem sua história marcada por bons espetáculos. Sua recente produção tem dado conta de manter constante a busca por trabalhos relevantes para o cenário do Espírito Santo. A exemplo da força das últimas peças, como Insone – que reflete sobre as questões da utilização do tempo pelo homem contemporâneo, sem espaço para o descanso –, temos agora o seu novo espetáculo,Vizinhos, permeado pela questão da solidão.

A peça é alicerçada pela construção de personagens que atravessam o imaginário da sociedade atual: estamos afundados em nós mesmos porque não temos espaço para compartilhar sentimentos.

Assim, a peça parte do dispositivo, que pode ser encarado como um tema clichê nas produções cênicas, não só do teatro, como do cinema e da televisão: a vida dos vizinhos. O teatro e a literatura são povoados dele por todos os lados; Recado ao senhor do número 903, crônica de Rubem Braga ou O Lixo, conto de Luis Fernando Veríssimo, são exemplos por hora lembrados.

A peça conta a história de dois homens que moram no mesmo andar de um prédio, como tantos outros de nossas cidades, mas não se conhecem e não possuem nenhuma relação, a não ser encontros rotineiros pelas áreas que lhes são comuns. São homens solitários. A solidão permeia a vida de cada um. No enredo, situações cotidianas levam a uma aproximação, desejada, de certa forma, por um deles e rechaçada pelo outro. Aí temos o mote da história. O enfrentamento da solidão é dado de maneiras opostas: um quer dividi-la, o outro quer evitá-la.

Para encenar essas vidas estão seis atores no palco. A peça tem a força da interpretação deles. Os seis atores se revezam na composição dos dois personagens. Três deles fazem um dos vizinhos e os outros três, o outro. Em cena, o personagem é o mesmo, mas cada um com as características marcantes dadas pela interpretação dos atores. Aí está um bom trunfo do espetáculo, uma de suas principais atrações. Nesse ponto, destaca-se a interpretação do ator-bailarino, Luciano Rios, que consegue dar um tom exato para as inseguranças de um dos vizinhos – aquele que quer aproximação. Ao mesmo tempo, temos, para o mesmo vizinho, a interpretação marcante de Carla van den Berguer, que extrai força da fragilidade do personagem. Não que as interpretações dos outros atores em cena não mereçam reconhecimento, mas os dois atores citados, chamam os olhares de forma mais atrativa. Luciano Rios tem uma interpretação magnética, chamando a atenção, mesmo quando o foco da cena não está nele. E isso aqui, não é colocado de forma negativa.

A forma do relato, com marcações bem definidas, é outra boa atração. A marcação das cenas, como passos de dança – notadamente influência da pesquisa de dança-teatro do grupo – não funciona apenas como um mero apoio à cena, mas como um dos seus elementos principais. É também atrativa a maneira como a história é contada: os atores anunciam cada cena, dando-lhe um título, seguindo para a ação. Essa estratégia é fundamental para que o espetáculo aconteça, pois já no título da cena, temos uma idéia do virá em seguida, mas sem estrega total. Uma das cenas, por exemplo, intitulada “Confissões do Cárcere”, se desenvolve na mais completa escuridão, levando o público a interagir diretamente com as emoções dos personagens. Em outra, anunciada como “Stairway to Heaven”, um dos vizinhos diz que tem mania de contar as coisas, como os degraus da escada que sobe e, enquanto desenvolve essa história, simultaneamente os personagens, interpretados por outros atores, vão simulando a subida da escada, com um deles contando as centenas de degraus.

Tem-se aí os elementos para que Vizinhos se aproprie dos clichês temáticos – a solidão nos grandes centros, a relação entre vizinhos, o medo da invasão de privacidade – para fazer um ótimo espetáculo. O tema é clichê, mas o Grupo Z não fica na sua superfície. O espectador é testado a não se deixar apenas se levar pela emoção ou pelo riso provocado pelas situações em cena. Para o Grupo Z, o espectador é convidado a sentir até onde o riso acaba. Por isso, a peça, propositalmente, provoca humor. A dramaturgia do Grupo Z nesse espetáculo, como em outros trabalhos recentes, não abre mão de tratar os temas contemporâneos com certa ironia, com olhos de ver os momentos conflitantes entre aquilo que é e do que poderia ser, se assim fosse a escolha da sociedade. Os conflitos produzidos pelos vizinhos solitários ali aparecem de forma, porque não dizer, heroica. Os vizinhos são heróis porque sobrevivem às condições adversas e enfrentam um inimigo invisível que nos atropela. E eles buscam liberdade. E acreditam nela, embora, cada um, a seu modo, pareça se aprisionar. Assim, Vizinhos, pode ser considerada um grito de liberdade: os personagens querem ser livres dos dias sufocantes e precisam se render um ou outro, mesmo que para isso precisem abrir mão de algo que lhes é caro no momento, a solidão.

 Vitória, março de 2015

vizinhos 1                                                                                                               Foto: Divulgação/facebook
Ficha Técnica:
Dramartugia e direção: Fernando Marques
Elenco: Alexsandra Bertoli, Carla van den Bergen, Daniel Boone, Eldon Gramlich, Ivna Messina, Luciano Rios.
Direção de produção: Carla van den Bergen
Figurinos: Francina Flores
Iluminação: Carla van den Bergen
vizinhos 2                                                                                                                Foto: Divulgação/facebook

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Viajante, da Companhia do Outro

A primeira coisa a se perceber a respeito da peça Viajante é a sua estrutura cênica no formato de solo, do ator Luiz Carlos Cardoso. As escolhas cênicas da peça são centradas inteiramente na figura do ator. Isso se configura já na cena inicial, quando o ator se apresenta ao público como tal. Ali está um ator, que anuncia a história que irá contar. Um viajante relembra suas histórias de encontros e afetos por eles deixados. Para isso, o espetáculo ora dá voz ao narrador-ator, ora às personagens: uma mulher que todos os dias vai à praça de uma cidade esperar por alguém e nessa espera vai costurando pássaros de panos; um pai que se despede do filho em um aeroporto; um homem que ao retornar à cidade natal, dentro de um táxi, reflete sobre o autoconhecimento; e um artista de rua confrontado com a polícia. Viajante é um espetáculo verborrágico. Os outros elementos cênicos – cenário, figurino, adereços, luz – quase não aparecem, mesmo que estejam lá. E aí está, contraditoriamente, a força e a fragilidade da peça.

Nesse espetáculo, o ator se apropria do texto de forma apaixonada e extrai dele o melhor possível. Isso fica mais claro quando o ator interpreta o ator-narrador. Talvez, porque, como divulgado, essas histórias tenham partido da vivência do ator e, por isso, em cena, elas se configuram como tal: um relato empolgado de um contador de histórias. No entanto, na composição das personagens coadjuvantes, o ator não dá a mesma medida, nem para o texto, nem para a atuação.

Mas o grande problema da peça é a falta de ação com os objetos em cena. As malas estão lá o tempo todo, mas não viajam com a personagem título e tampouco com as outras personagens por ela encontradas no caminho. Os elementos revelados – que estão dentro da mala – quase não são utilizados. A plateia fica esperando que eles façam parte do espetáculo, que eles emerjam para atravessar as personagens e chegar até ela. Mas isso não se configura. Os objetos estão lá, nas malas, e por lá ficam. Presos.

viajante 1                                                                                           Foto: divulgação/facebook

Na proposta cênica que se cria, a peça busca dar conta de relatar um conjunto de experiências vivenciadas para a compreensão da personagem título – o viajante – para que mais amplamente o público se reconheça tanto na relação com ele e também com das personagens encontradas. Na intensidade da narrativa, é preciso atentar para o que importa: vivemos o que lembramos ou lembramos o que vivemos. A memória como arcabouço de sentidos. A sensibilidade do diretor Fernando Marques aponta nessa direção. O que une as personagens no palco são as memórias dos encontros do ator e diretor (com outras pessoas e entre eles), expostas para uma ressignificação do público. Ali, as memórias das personagens são também memórias do público. Sempre fica o que tem significado.

Nesse sentindo, podemos arriscar que, talvez, na memória do público, ao relembrar da peça Viajante, fique muito mais a interpretação do ator do que as histórias por ele narradas.

Vitória, fevereiro de 2015

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Mesas Falam e se Movem, do Grupo Confraria de Teatro

É muito rica a forma como o grupo Confraria de Teatro traz para a cena capixaba o espetáculo Mesas falam e se movem. Já as primeiras imagens apresentadas em cena, quando da entrada do espectador no ambiente, criam um ambiente estranho, que de certa forma encanta. Uma grande mesa posta. Uma mesa tão grande que, na dimensão do espetáculo, “fala e se move”. O estranhamento proposto passa pela acomodação do espectador à mesa e nos olhares destinados a ele: é convidado a sentar à mesa, mas ao mesmo tempo lhe é retirado o direito de participar diretamente da encenação. Isso seria um problema, mas as resoluções propostas faz com que isso não se configure nesse espetáculo. Ele nos conduz à sensação de que participamos de alguma forma da vida daquelas mulheres. E o estranhamento se torna cumplicidade à medida que as personagens vão se dilacerando diante dos nossos olhos.

A história envolve três narrativas independentes, mas ao mesmo tempo atravessadas pela temática: a relação entre mães e filhas. Mas, para além dessa relação, a temática é o universo feminino, a partir da visão contrastante de mães e filhas: a opressão feminina, os dilemas existenciais e sexuais, a morte dos entes familiares. E, desta forma, vão sendo contadas as histórias individuas daquelas mulheres, propiciando uma tessitura de tramas que se confundem com tantas outras conhecidas pela plateia. Para isso, as atrizes se revezam nos papeis de mães e filhas. Todas as atrizes conseguem imprimir a força necessária para que suas mães e suas filhas ganhem o espaço e emocionem. Aí reside uma das grandes forças do espetáculo.Tudo é feito de forma sutil, contando com uma dramaticidade localizada, sem excessos.

Outra grande força é a utilização do espaço – no caso, as dependências do Museu Capixaba do Negro. A composição das cenas a partir dos espaços cênicos disponíveis mostra como o grupo pesquisou e se apropriou adequadamente de cada ambiente, inclusive da rua, na cena final (uma surpresa para o público no desfecho, que enriquece significativamente todo o espetáculo). Da mesma forma, o uso do espaço cênico da própria mesa, em torno da qual as histórias são contadas. A mesa e seus pequenos adereços escondem muitos segredos e surpresas reveladas durante a apresentação.

O Grupo Confraria impõe um projeto estético que prima pela qualidade da encenação e do texto, que coloca questões que propiciam o entrelaçamento do feminino com o masculino. A presença masculina a todo tempo se impondo, mesmo na ausência física. Por isso, há um cuidado no ritmo, para que as sensações das personagens atravessem o espaço-tempo e o corpo de quem assiste, colocando em cena o universo feminino sobre a sombra do masculino.

Assim, em seu primeiro espetáculo, o Grupo Confraria demonstra de ser capaz de figurar na cena capixaba não como uma promessa, mas como um grupo atuante, compromissado em nos trazer questões instigantes, encenação primorosa e boas atuações.

Sem dúvidas, 2014 já tem o seu espetáculo do ano!

Vitória, maio de 2014.

mesas - cartaz

mesas - divulgação JUANE VAILLANT                                                                         Foto: Divulgação/Juane Vaillant

 

 

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Chico Prego, da Companhia Makuamba

chico pregoSempre que uma peça pretende levar para o palco um fato histórico, acompanhado por elementos da tradição popular e de forma musical, paira a preocupação do espetáculo cair em clichês e errar a mão. Chico Prego, a peça da Companhia Makuamba, dirigida por Nysio Chysóstomo, conseguiu unir esses elementos de forma acertada. A proposta do trabalho é exatamente contar uma página da nossa história, a Insurreição do Queimado, unindo elementos de música, poesia, brasilidade, e por que, não um toque de capixabismo.

Partimos então ao enredo: os dias e a motivação da revolta dos escravos, no distrito de São José do Queimado, do município de Serra. Um padre convoca os negros a participarem da construção de uma igreja, prometendo atuar junto com seus donos para que cada um fosse alforriado. A revolta, que ficou conhecida como Insurreição do Queimado, nasceu dessa promessa não concretizada de liberdade. Na peça, temos a articulação dos personagens que participaram desse fato histórico, sendo centrada nas figuras dos líderes do movimento: Chico Prego, Elisiário e João da Viúva.

Para contar essa história, grupo se utiliza de diversos elementos da cultura negra, que estão lá desde o primeiro momento: no prólogo, a vinda dos escravos: Yemanjá, a rainha das águas, acompanha o navio negreiro trazendo os negros para serem escravos aqui no Brasil; e ainda a inserção da poesia de Castro Alves, com trechos de Navio Negreiro, dando o tom do espetáculo, a luta pela liberdade. Ao longo da peça outros elementos da cultura afrobrasileira vão aparecendo: estão lá a copeira, o berimbau, os tambores, os orixás, o congo etc. Além do congo, da cultura capixaba, aparece Nossa Senhora da Penha, numa alusão ao milagre atribuído a ela pelo lendário sumiço de Elisiário da prisão, após a revolta ser contida. Mas nada disso sobra no espetáculo; a utilização é sempre de maneira oportuna.

Em cena, os atores dançam, cantam, tocam e trocam de figurino. Muitas vezes, esses elementos estão reunindo numa mesma cena. Reside aí, um dos aspectos mais atraentes em Chico Prego. A história é contada de forma dinâmica. Os objetos cênicos – principalmente os grandes baús que compõem o cenário – são utilizados para transformar os ambientes e dão movimento e ritmo à cena, junto com os atores.

No entanto, Chico Prego tem algumas falhas visíveis: na dramaturgia, apresenta um Chico Prego sem a devida força que justifique o nome da peça – o personagem Elisiário tem uma relevância muito maior no espetáculo. Chico Prego não é o protagonista. Não estamos querendo dizer que o protagonismo se faz necessário. A peça retrata um evento histórico, uma revolta popular, na qual o grande protagonista é um sujeito coletivo, os escravos da região. Contraditoriamente, não estamos querendo reafirmar com isso o nosso modelo de contar história, centrado no individualismo, na figura do herói, no caso o Chico Prego. Mas levando-se seu nome ao título do espetáculo, espera-se que, com ele, possamos conhecer um pouco mais da vida e da força desse homem. Mas a peça não proporciona isso. Talvez isso se deva a uma falha tanto na dramaturgia quanto na atuação de Nill Shaefer, que faz o personagem título. A sua atuação precisa ser amadurecida, ela não tem a força pretendida pelo espetáculo. O mesmo podemos dizer de outras atuações, como o padre, do jovem Rafael Machado e ainda Bené Freire em suas aparições. Podemos apontar ainda algumas passagens que apresentam certo didatismo, principalmente, quando se vai contar sobre a  insurreição, o que fica um pouco destoado da proposta dinâmica da peça.  Mas nada disso é suficiente para tirar os méritos dessa peça autêntica, simpática e que busca o tão desejado diálogo com o público.

Um dos pontos fortes da peça é a atuação das mulheres. Nenhuma delas tem um papel definido, funcionando como coringas, transitando, cada uma, por vários personagens. No entanto, rendem bons momentos na trama. A aparição delas, na maioria das vezes, serve para costurar a história, recurso muito bem empregado, aliás.

Em Chico Prego há toques poéticos, históricos e dramáticos – esses últimos com menos força – que certamente conseguem despertar certa sensibilidade no público para o desejo latente de liberdade. A história de Queimado no palco leva certo brilho ao olhar do espectador, frente a um momento do passado que busca não ser esquecido. E que nunca deve ser esquecido. Mérito da peça!chico prego mulhres

Vitória, março de 2013.

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Tempos de Areia, do Repertório de Artes Cênicas e cia

O novo trabalho do Repertorio de Artes Cênicas e cia Tempos de areia traz a história de uma vila que foi soterrada pela areia, bem como os transtornos da chegada de uma multinacional nas redondezas – uma alusão direta à vila de Itaúnas, situada em Conceição da Barra, norte do estado. As lendas a respeito do soterramento da vila já fazem parte do imaginário popular capixaba, de modo que a peça não traz nada de novo e tampouco de inovador no modo de contar essa história.

No prólogo temos uma figura futurística, quase robótica, que recebe o público e anuncia que a plateia faz parte de um grupo seleto que aproveitará as maravilhas tecnológicas de uma empresa de moradia, capaz de recompor o ecossistema local para o bem estar de quem possa pagar. A utilização do recurso de ficção científica (abordada levemente pela peça), apresentando um futuro próximo e devastado, sem a presença de ecossistemas sustentáveis, sem plantas e sem animais, poderia cumprir o papel que esse tipo de literatura desperta: espelhado no mundo real, o fictício proporciona divagações de questões cotidianas presentes. No entanto, não há uma explicação plausível que justifique a mudança social pela qual o mundo passou para esse futuro, não tão distante. Nem amparo científico. O cientista em cena não explica nada. Isso não faria falta se o restante do roteiro conseguisse dar conta de apresentar uma história cativante ou fizesse uma crítica social e ambiental contundente à atual situação em que encontra os moradores com a instalação da multinacional de celulose. Mas não faz nenhuma coisa nem outra. Tempos de areia não se configura como uma história da vila de pescadores, nem como uma história de amor e tampouco como crítica social. Paira no superficial dos pontos levantados.

A história de amor poderia render uma boa peça, mas não rende. O amor de Rafaela e Antônio não traz para o palco a força que as palavras contadas pela atriz diz ter. A personagem de Rafaela diz que foi a partida de Antônio a razão do soterramento da vila. Mas o flash back utilizado para contar a história de amor dos dois rende um dos piores momentos da peça. O amor apresentado não moveria nem um grão de areia, quiçá teria a força para soterrar uma vila inteira.

Então, restaria a história do soterramento da vila como possibilidade para o palco. Mas também ela não ocorre. A história oral conhecida do soterramento causado pela troca dos santos passa pelo palco de forma nada empolgante.

Fora isso, o que poderia salvar o espetáculo seria atuação dos atores. Mas infelizmente não observamos a boa atuação dos atores do grupo, como em outros trabalhos. Não temos a presença de palco marcante de Nícolas Corres Lopes e Roberta Portela que já observamos em outros espetáculos, como no ótimo Bernarda, por detrás das paredes, por exemplo. A construção dos personagens possui visíveis rachaduras, que a tela protetora do cenário não nos impede de enxergar.

E para terminar, podemos ainda nos perguntar: onde está a presença da dramaturga Nieve Matos em Tempos de areia? Não conseguimos enxergar ali as características de seu teatro, que vimos em trabalhos anteriores. E não estamos querendo dizer que um diretor não possa mudar ou transformar sua forma de trabalho. A diretora já deu provas de sua marca em trabalhos do Repertório, como Bernarda, por detrás das paredes e até mesmo nos trabalhos com seus alunos da Fafi (Homens de papel, em 2010; Ubu que pariu!, de 2011 e Computador, de 2012): um trabalho pulsante, atrativo, que não vemos em Tempos de Areia.

Assim, em Tempos de areia, os elementos para a construção de um bom espetáculo estão lá, mas faltou o crucial: o grupo comprar a própria ideia, e não só apresentá-la.

Tempos de areia

Vitória, março de 2013

Foto: Luara Monteiro

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